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Guia da Umbra para o Mundo das Trevas – Parte 1

05/01/2013

“Sol et eius umbra.” Maier, Scrutinium chymicum (1687)

Quando eu escrevi o artigo da Umbra para Despertos não imaginei que levaria tanto tempo para escrever novamente sobre ela. A explicação é simples: ainda que cada cenário do Clássico Mundo das Trevas leve a Umbra em consideração de um jeito, existem pontos que são comuns a todas as criaturas que vivem na Tellurian. Então, antes de volta a falar sobre a Umbra especificamente para cada criatura existente no cenário, preferi fazer um guia, digamos… mais geral.

Este artigo não pretende ser definitivo – isso seria um trabalho hercúleo. Começarei abordando a Umbra Próxima, que compreende as três Umbrae e a Película, e que, ainda que infinitas em si, dadas as características da própria Umbra, estão ligadas à Terra e seu sistema atmosférico e possuem algo que pode ser compreendido como limite, por assim dizer (sim, a Umbra Próxima é infinita em sua finitude). Na verdade, para que o texto não fique muito gigante e impossível de ler, aqui eu vou até a Película, mas logo eu devo seguir adiante.

Depois de passar pela Umbra Próxima, vou avançar para o que existe além, bem como voltar a dar atenção para a visão particular de seres sobrenaturais sobre a Umbra, e esses links serão adicionados ao final deste artigo –já que, tá-dá! Temos uma nova série de artigos, que surgiu enquanto eu procurava o modo mais simples de falar da Umbra e ai descobri que não é realmente possível. Contribuições são sempre bem-vindas também, então não se acanhem em participar e enviar artigos e participar da discussão!

Esta é a minha visão da Umbra, baseada em anos de experiência jogando e Narrando cenários diversos do Clássico Mundo das Trevas, passando por Vampiro, Lobisomem, Mago, Wraith e Changeling e seus “sub-cenários”,em material oficial e discussões com outros jogadores e Narradores. Não é, e nem deve ser, a única visão válida, já que o que deve ou não ser levado em consideração em cada mesa de RPG varia da interpretação da mesa como um todo e da visão de cada Narrador. Não, eu não estou exibindo o que eu sei ou deixo de saber (mesmo porque esta seria uma atitude extremamente infantil), apenas deixando claro que sim, estou levando em consideração, ao mesmo tempo, cenários diversos dentro do cenário maior. Você pode levar em consideração o que você quiser, ou nada disso: o jogo é seu, então se aproprie dele e se divirta!

Um pequeno aviso: abandone um pouco sua mente lógica e abrace mais sua mente poética. É impossível compreender, do ponto de vista dos jogadores e dos Narradores, o que é a Umbra, se nos apegarmos demais à lógica racionalista – ainda que grupos diferentes de personagens prefiram esta ou aquela visão da Umbra, mais poética ou mais racional, dependendo da visão de mundo da “raça” e do indivíduo em questão.

A Terra

Retomando o artigo, tudo começa na Terra. A Terra, da forma como nos referimos quando falamos do Clássico Mundo das Trevas, se refere ao mundo material, esse lugar onde neste momento, eu escrevo este artigo, e num paradoxo de tempo, neste lugar físico, ai na frente do seu computador (ou tablet, ou smartphone), onde você lê este artigo neste momento.

Mas… existe um ponto… onde eu estou escrevendo este artigo agora, e você está lendo este artigo agora, e o tempo e o espaço se cruzam, porque estamos fazendo essas coisas em lugares diferentes, mas ao mesmo tempo estamos aqui, agora, nesse lugar, seja lá onde ele for, certo? E que permite que a percepção de que eu estou criando este artigo ao mesmo tempo em que você está lendo este artigo… então espera. Tem algo acontecendo aqui, e talvez, apenas talvez, estejamos rondando a Periferia.

A Umbra Próxima

Como já coloquei ali em cima, a Umbra Próxima se refere à Película e às três Umbrae: Umbra Alta (Alcances Astrais), Umbra Média (Ermos Espirituais) e Umbra Baixa (ou Umbra Sombria/ Submundo).

A Película, a Mortalha e a Muralha

A Película é, do modo mais simples, a barreira entre a Terra, mundo físico, e tudo o que existe além. Além do que os olhos não treinados podem ver – mesmo que, às vezes, mesmo os olhos não treinados poderem ver… coisas.

Do modo complicado, vamos pensar no que significa a palavra. Em inglês, o termo para Película é Gauntlet, que significa tanto manopla, aquela luva metálica medieval quanto, figurativamente, desafio, lançar um desafio (como bater com a luva na face de alguém para desafiar a um duelo). Enquanto o termo Película, em português, dá a ideia de uma camadinha fina e suave que envolve algo, no termo em inglês temos a força da expressão. Imagine a Película como algo que contém, que comprime, que “aperta”, envolve, limita… e impede o que está na Terra de se misturar com o que está na Terra, mas ao mesmo tempo, além. E é, por si só, um desafio, para aqueles que ousarem transpor esse limite.

A partir daqui, vemos um erro muito comum de interpretação do que seja a Umbra. Muitos jogadores (e eu também já incorri neste erro) acham que a Umbra é um lugar separado, e a resposta é que ela é e ela não é. Pense numa cebola… mas numa cebola metafísica (não achei melhor termo do que esse que rendeu praticamente uma sessão inteira da minha mesa de Mago, valeu Kassim!), em que as camadas se sobrepõem. Mas elas não só se sobrepõem, como também ocupam o mesmo lugar no espaço, mas, digamos, vibrando em frequências diferentes, de modo que, geralmente, elas não se cruzam. O que diferencia e separa a vibração mais densa, que é a da Terra, de todas as outras (que também vibram em frequencias diferentes entre si), que são as Umbrae, é justamente a Película.

A “espessura” da Película e o desafio que ela impõe variou bastante de século para século e mesmo agora, quando ela representa um desafio maior, ainda varia de lugar para lugar. Entretanto, nos últimos 200 anos houve um espessamento maior e mais rápido da Película, de um modo nunca visto antes, por culpa da crescente influência do paradigma da Tecnocracia (com uma colaboração inestimável dos vampiros da Camarilla que, ao reforçar a descrença dos mortais no sobrenatural, colabora para que tudo o que é considerado sobrenatural se separe ainda mais da Terra – o que acaba por reforçar a Película).

Via de regra, a Película é mais fina, mais “película” em lugares ermos, desertos, selvas inexploradas, lugares sagrados ou pontos de fé, e mais espessa em lugares como centros comerciais, laboratórios e grandes aglomerados humanos. A força da Película, se mais fina ou mais espessa, determina a dificuldade para o que os lobisomens chamam de percorrer atalhos.

Ainda que se considere que a Película é uma coisa só… na verdade ela não é. De certa forma, é como se existissem três Películas, uma que separa a Terra dos Acessos Astrais da Umbra Alta, uma que separa a Terra dos Ermos Espirituais da Umbra Média e uma que separa a Terra do Submundo da Umbra Baixa – e ao mesmo tempo, sim, elas ocupam, por assim dizer, o exato mesmo lugar no espaço. Ou não. É mais uma questão de percepção e de estado de consciência do que qualquer outra coisa.

Só como nota, a Película é o que as aparições chamam de Mortalha (do inglês Shroud), que seria a Película que separa a Terra da Umbra Baixa, e o que os membros do Projeto Orpheus chamam de Muralha de Tempestade (alguém ai tem uma tradução melhor para Stormwall?), a barreira que metafísica que separa os vivos dos mortos (ou seja, Mortalha) e o que os orientais (ferais do oriente, kuei-jins etc.) chamam de Muralha.

A Periferia

Ao longo da Película existem pontos onde ela sangra. Através desses furos, o que existe além “vaza” para a Terra, e o que existe na Terra “vaza” para dentro da Película e “contamina” a Umbra. Um dos fenômenos ocasionados por esse sangramento é a capacidade de, às vezes, seres humanos normais alcançarem um lugar que é chamado de Umbra Suave, que seria um estado de consciência que existe entre a Terra e a Umbra. Seria um estado que é acessado por rituais mágicos dos humanos, durante êxtases religiosos ou mesmo explosões criativas ocasionadas pelas manifestações artísticas da potencialidade humana, ou ainda, pelo transe ocasionado pelo consumo de algumas drogas ou mesmo pela dor extrema durante alguns processos específicos de “iluminação” usados por religiões e filosofias humanas. Mesmo o estado de transe em que a observação da arte, quando toca o âmago de um ser, é capaz de colocar nesse estado (e talvez, seja uma explicação… plausível para o estado de transe em que os Toreador entram em algumas situações, mas é só uma suposição totalmente pessoal, já que os Toreador ampliam a própria visão e fazem encadeamentos lógicos durante essas visões, mas estou divagando).

Este estado é muito… suave, sutil, para ser alcançado por uma criatura sobrenatural como um mago ou um lobisomem – o que demonstra que, talvez, a alma humana continue faminta pelo mundo de que foi colocada a parte, desejando uma unificação como a que existia nos tempos primevos. Mas esta necessidade humana pela Umbra Suave é só uma teoria de alguns grupos sobrenaturais, e pode ou não ser verdade.

Como Essas Coisas Se Sobrepõem?

Existe uma imagem um pouco antiga na Internet, em inglês, sobre a sobreposição das três Umbrae. Fiz uma versão desta imagem, com os nomes e termos em português:

Não ficou nenhuma maravilha essa imagem da Umbra Próxima, e possivelmente os artigos futuros vão “exigir” mais imagenzinhas, mas estamos trabalhando nisso xD

Outra coisa interessante de se notar é que está tudo um tanto sobreposto. Mais do que um lugar, a Umbra é um estado de consciência, uma vibração de existência, e suas camadas se sobrepõem. Quanto mais “leve”, mais próximo se fica da Umbra Alta, e quanto mais “denso”, mais perto da Terra em si. E ainda existe aquela “densidade” que está nua vibração tal que, no lugar de se aproximar da superfície da Terra, vai além, se aproximando da Umbra Baixa. Como eu disse, precisa-se mais da lógica poética do que da lógica racional para se entender esse “lugar”.

A Película e a Tempestade de Avatar

Em 1999, ao final da Semana dos Pesadelos, um bizarro afluxo de energia espiritual se formou dentro da Película, mas só é, de fato, perceptível (e sentido) do lado da Umbra. Esta informação só é de fato muito relevante para jogadores de Mago: A Ascensão Edição Revisada (ou 3ª Edição), então não precisa se preocupar muito com ela – já que jogadores de Wraith precisam ignorá-la para continuar jogando. No futuro, pretendemos falar um pouco sobre ela em um artigo específico.

* * *

Bem, por enquanto é isso. Não precisa se preocupar de perder este artigo de vista – ele foi adicionado no menu ali embaixo sobre o Mundo das Trevas, já que serve bem a todos os cenários do jogo. Como é uma série de artigos que ainda está sendo feita, ele vai servir, também, para reunir links de outros artigos nossos sobre a Umbra, bem como os links da continuação dessa série, que promete ser longa.

O que vocês acharam? Quais as maiores dúvidas? Vão falando ai, que eu vou anotando e incluo a respostas para as dúvidas nos momentos mais oportunos, ao longo dos artigos.

Guia da Umbra para o Mundo das Trevas

Outros Artigos sobre a Umbra

Como aqui vamos reunir os artigos mais específicos sobre a Umbra, será explicado entre parênteses quando o artigo em questão estiver mais relacionado a algum cenário específico do Clássico Mundo das Trevas (que pretendemos ampliar muito em breve)

Autora: Eva

Sobre Eva

Tradutora, revisora, escritora e sonhadora. Anarcafeminista em constante estado de amor e horror com o mundo. Editora no Livro dos Espelhos.

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