Drive Thru RPG

Sobre Coisas Malignas e “Ser Especial”

23/09/2012

Eu vejo cada vez mais gente jogando como antagonista no Clássico Mundo das Trevas. Tecnocratas, Nephandis, Dançarinos da Espiral Negra, fomoris, Baalis. Não há problema em fazer uma crônica ou aventura diferente. O que me mata de medo às vezes é a percepção das pessoas a respeito do uso desses personagens e de uma ideologia por trás deles. Vejo grupos tentando demonstrar o quanto compreendem do cenário por “abrir barreiras” quando, na verdade, acabam misturando conceitos e coisas absurdas, às vezes pelo simples prazer sádico de demonstrar a passantes ou eventuais espectadores o quanto podem ser criativos em matanças e brutalidades. Não há problemas em jogar algo como Freak Legions. É um jogo. O problema é começar a levar isso como uma forma poética de “distorcer visões culturais, gerando uma base de conflito e reflexão a respeito da unicidade do conceito de bem e mal”.

Bom, eu queria entender de onde esses antropólogos de plantão surgem. Por que material para explorar diferenças e reflexões existe em todos os livros, livremente, e ainda assim, algumas coisas permanecem MÁS em todas as culturas. Entropia não é Corrupção absoluta. Demônios internos não são psicopatias livres, e acima de tudo, não são entrar numa Coifa e entregar a própria Vontade Desperta na mão de um Lorde Não-Nascido. Storyteller tem um milhão de histórias possíveis com o material disponível em cada cenário, onde a Sombra e o Id podem ser explorados à vontade, onde podemos compreender as facetas mais sombrias da humanidade, SEM a necessidade de descer numa espiral direta para “ser o mal”.

Então me pergunto… por que a necessidade de jogar sempre com personagens “semi-malignos” em roupagens antagonistas, pelo simples prazer de assustar, provocar os amigos com histórias, ganhar a fama de “omg, como aquele cara é incrível e especial” em cima de um jogo?

Muitos vão me dizer que a Regra de Ouro existe. Sim, ela existe. Mas se modificamos um jogo a ponto de deformá-lo o suficiente para ficar irreconhecível, será que ainda estamos jogando aquele cenário? Não é mais simples dizer que estamos jogando uma versão própria, ao invés de levantarmos uma bandeira dizendo estarmos jogando este ou aquele jogo?

Apesar de o cenário deixar a maior parte do mundo aberto a interpretação, algumas coisas são deixadas muito claras nos livros, como o fato de os Outter Gods, Malfeanos, Malditos e seus amigos NÃO serem apenas criaturinhas mal-compreendidas. Eles são o mal. Não o mal humano, essa coisa mesquinha que fazemos a nós mesmos, mas um mal tangível e maior, a própria corrupção. O final de toda a Tellurian como a conhecemos, sendo destroçada diariamente através das maiores depravações, torturas e simbolismos, alimentando a Descensão.

Sobre a Tecnocracia, o problema é mais embaixo: não, os agentes não são o mal encarnado. Mas em qualquer livro de Mago você vai encontrar menções ao fato de a Tecnocracia ser totalitarista e opressora. No próprio Guia da Tecnocracia, Fahrenheit 451, Admirável Mundo Novo e 1984 são citados como referências. Não, isso não significa que os agentes são seres cinzentos e sem alma. Existem Tecnocratas que realmente acreditam estar fazendo o bem. Da mesma forma que temos pessoas extremistas no mundo real, lutando pela censura, pelo direito de impedir as massas de escolherem o que querem, e assim por diante. Ser uma engrenagem sonhadora não significa ser menos engrenagem: e a própria Tecnocracia afirma que engrenagens danificadas devem ser substituidas e reformatadas. Outro aspecto ignorado, muitas vezes, é que os próprios livros que falam da Tecnocracia deixam bem claro que muito do material positivo demonstrado é na verdade um imenso trabalho de Propaganda. Com P maiúsculo. Remetendo ao significado original da palavra. Acreditar piamente que os Tecnocratas são os herois não é errado. Mas será que não estamos em um ponto onde relativizar e justificar meios maquiavélicos de criar um “mundo melhor” está nos tornando um tanto dormentes quanto ao nosso próprio senso crítico?

Querer jogar com um antagonista significa compreender estar jogando com algo com defeitos imensos e uma carga de aspectos negativos que justamente dão a cor e o tom de algumas crônicas. Distorcer esses aspectos para justificar a escolha de uma facção significa diluir a significância daquele grupo, muitas vezes transformando exceções quase inexplicáveis em uma regra…

E vocês, costumam relativizar os antagonistas na sua campanha? Acha que tudo bem, um barabbi é só um mago um pouquinho malvado e mal compreendido?

Autora: Emi

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