Drive Thru RPG

RPG – Não é só dados e fichas

06/10/2010

CHX27237

Primeiras Considerações

Bem, para ser sincero não sei se isto vai chegar a ser concluído, ou mais do que isso, não sei se vou conseguir transmitir aqui a coerência que quero (apesar de ser estático, minha mente é dinâmica demais), então se você estiver lendo essas linhas iniciais, é sinal de que pode ignorar este primeiro parágrafo!

Antes de qualquer coisa, quero deixar registrado aqui que a ideia deste texto não é apresentar nenhuma verdade absoluta, pelo contrário, é apenas apresentar a minha opinião principalmente baseada no que eu costumo chamar de “bom-senso pessoal” e como tal, ele permite o diálogo, a discussão e a crítica – desde que feita de forma minimamente coerente, é claro.

Tomei essa iniciativa me baseando no que venho vendo quanto ao RPG, na visão que certos jogadores possuem desta atividade e na forma como o praticam e o pensam. Minha intenção com o texto é inicialmente expor minha opinião tentando fazer com que o leitor pense um pouco sobre a forma como a qual enxerga o RPG e o pratica. Não quero mudar a opinião de ninguém, eu quero apenas propor uma reflexão sobre os temas abordados.

Esse tal de Role Playing Game…

Engraçado que originalmente essa atividade, que tem por significado básico “Jogo de Interpretação de Papéis” carregue muitos outros valores que o tornam mais complexo. Mas partamos do princípio.

O RPG é uma atividade cuja proposta é reunir um grupo de pessoas – física ou virtualmente nos tempos mais atuais – onde juntos eles contarão uma história. Isso mesmo uma história, independente do sistema utilizado ou do estilo do jogo, a premissa básica é que uma história está sendo contada. Justifico este ponto usando até conceitos literários básicos.

Quem são os jogadores? Personagens que agem seguindo uma personalidade construída e baseada na criatividade de quem os criou. Com quem interagem? Entre si e com outros personagens criados pelo Narrador. Onde interagem? Em um espaço normalmente definido pelo cenário que jogam e pelas alterações que o narrador aplique a ele. Como interagem? Através de um enredo dinâmico proposto pelo cenário e alterado pelo narrador e pelas decisões que os personagens tomam no decorrer do tempo. Eu poderia ir além, mas acho que já consegui demonstrar meu ponto. Para quem não tiver identificado, estes termos em negrito representam elementos básicos na constituição literária de um texto em prosa.

Portanto meu caro, mesmo que você seja um paladino do deus da justiça que invade uma masmorra para matar monstros e salvar a princesa, que você seja um herói dos animes com poderes cósmicos e fenomenais, ou mesmo que você seja um vampiro manipulador frio e calculista que usa aqueles ao redor como peças de xadrez, você está igualmente fazendo parte do contar de uma história.

A Última Bolacha Recheada do Pacote, aka Personagens dos Jogadores

Certo, então até aqui, o RPG é uma atividade onde uma história está sendo contada. E as peças-chave desta história, os protagonistas são sempre os personagens dos jogadores. Eles são aqueles capazes de mudar o destino e o rumo da história, a história deve sempre ser contada ao redor deles, afinal esta é a graça da atividade. Vejo certos narradores com o hábito de criar personagens incríveis e colocar o destaque nestes, em detrimento a seus jogadores. Desta forma, o narrador está na atividade errada, deveria tentar a literatura e a escrita onde suas criações são o destaque, e não o RPG. Afinal, qual é a graça de jogar com um personagem em uma história onde aquele NPC fodão do mestre resolve todos os pepinos ou é um obstáculo invencível? Do que me adianta cair de cabeça na construção de um personagem profundo se ele não vai ser o elemento mais importante?

Falando em construção de personagens, este é outro ponto que merece menção. Um personagem é um alter-ego do jogador, uma criação fictícia que normalmente representa um ser humano – ou não tão humano assim, dadas as propostas de cada cenário – pensante, com uma história de vida, experiências, motivações e desejos, e todo aquele blá blá blá que vocês já conhecem. Portanto o quão importante é detalhar isso ao se criar um?

Pensando por outro ponto de vista, um ator quando interpreta um personagem costuma estudá-lo, se prende a detalhes, faz laboratórios para imergir na realidade que terá que representar, ensaia, muda conceitos, enfim. E ele o faz para soar verossímil, isto é, para soar verdadeiro, que os expectadores ao vê-lo acreditem na ilusão de sua interpretação. Portanto o quanto dessa verossimilhança é importante nos nossos personagens? Eu diria que é variável, dependendo do estilo de jogo e dos jogadores, e do quanto cada jogador gosta de lidar com isso que muitas vezes pode soar complexo.

Um exemplo: quero jogar com um espadachim de estilo árabe, um príncipe guerreiro, algo inspirado no jogo Prince of Persia. Entretanto só joguei o jogo, e conheço pouco do que é de fato um príncipe da Pérsia, tenho apenas a referência visual do jogo. Bem, primeira coisa talvez seja dar uma lida na internet sobre a Pérsia, ver se de fato havia príncipes por lá, como era aquela sociedade, costumes e hábitos, etc. Isso ajudaria a dar forma e mais conteúdo ao personagem. Através disso eu possa até definir um “background” para meu personagem de forma mais fácil, e expandir o já comum e limitado “meu pai foi morto pelo Vizir que queria o trono e o poder, então tive que fugir para sobreviver.

Isso implica no grau de detalhamento utilizado. E isso varia de pessoa pra pessoa. Alguns gostam de ir fundo nisso, e outros nem tanto. Depende do quão “detalhado” você queira seu personagem – ou o quão detalhado seu narrador assim deseja. De qualquer forma não esqueça que seu personagem é um dos principais. E na maioria das histórias, nenhum personagem principal é superficial.

RPG – Unindo forças… ou não!

Outro ponto que quero levantar aqui é: O que o motiva a jogar RPG? Infinitas possibilidades surgem aqui mas geralmente elas se agrupam em locais-comum. Alguns gostam de jogar meramente por ser uma oportunidade de reunir amigos para fazer algo legal, comer uma pizza, falar besteiras, passar um tempo legal e de qualidade com amigos. Outros se prendem mais ao conceito de “ser alguém diferente de mim”. Estes normalmente se prendem à atividade da interpretação em si, sentindo prazer em “fingir” ser alguém diferente, ou em alguns casos, alguém semelhante mas com outra “roupagem”. Outros – especialmente narradores – gostam do RPG por este permitir contar uma história. Gostam de colocar sua criatividade em prática, criando narrativas e enredos que entretenham o público. Outros encaram o RPG como um tipo comum de jogo, onde você tem poderes, pode fazer coisas fora da realidade, soltar hadoukens e shoryukens de fogo, saltar sobre prédios, voar, socar, chutar e bater dentre outras coisas. Esta parte é dirigida principalmente a este último grupo – embora igualmente dirigido a todos.

Um dos conflitos para alguns é justamente definir o RPG enquanto jogo. Segundo o dicionário, jogo é uma “atividade mental ou física, regida por regras, que envolve alguma forma de competição ou de aposta e da qual resulta ganho ou perda”. E no RPG na grande maioria das vezes, não há esse conceito de ganho ou perda, ou o de competição. Em condições normais de temperatura e pressão, o RPG não promove a competição entre os jogadores nem contém condições que permitam vitória ou derrota. No máximo, se pensa em vitória ou derrota enquanto objetivos atingidos com sucesso ou não.

Entretanto há jogadores que consideram o RPG um mero videogame com papel, lápis e dados e interpretam seus personagens como o Ryu em Street Fighter onde no final o personagem dele deve ser o vencedor final, tendo superado todos os outros, no melhor clichê de Highlander, onde só pode haver um.

Isso é complicado numa proposta onde você possui mais jogadores e personagens cuja premissa básica é justamente a interação. O RPG propõe que você tenha vários personagens agindo em conjunto e esse tipo de comportamento atrapalha e muitas vezes estraga a diversão do grupo. Isto é reforçado em muitos cenários onde cada “tipo” de personagem é bom numa determinada área. Um guerreiro costuma ser a força bruta do grupo mas não tende a ser bom em agir furtivamente ou em curar a si e seus companheiros, atividades normalmente realizadas pelos ladinos e clérigos respectivamente. A conclusão disso é que muitas vezes o RPG propõe o trabalho em equipe. É agindo em conjunto e todos se ajudando que o objetivo vai ser concluído com maior chance de sucesso.

Não me entendam mal. Não quero propor que seus personagens sejam ursinhos carinhosos que nunca brigam entre si e vivam felizes na Nuvem Rosa, lutando contra o mal do terrível Coração Gelado. Pelo contrário, o conflito entre personagens de jogadores é justamente um elemento legal de se trabalhar nas histórias. Veja o Ikki em Cavaleiros do Zodíaco por exemplo. Começa como um antagonista que posteriormente se une ao grupo, porém nunca de fato concorda ou tolera a presença dos outros, preferindo agir por conta e com seus valores, porém sempre trabalhando em conjunto quando necessário. Seu personagem precisa ter o mínimo de capacidade de tolerar os outros e agir em sintonia. Caso contrário é muito provável que todo o seu grupo morra – incluindo você – quando estiverem enfrentando aquele poderoso dragão vermelho e cada um não fizer a sua parte. Afinal, jogar RPG também é pensar na dualidade “individualidade X coletivo”.

Esse jogo estranho dessas crianças estranhas…

Quero ainda levantar um último ponto que a meu ver é o mais polêmico: pensar o RPG olhando de fora, pensar nas implicações sociais da prática. Acho que é visível a todos que passem algum tempo jogando e interajam com outros jogadores que o RPG não é um hábito muito difundido no Brasil como um todo. Poucas pessoas o conhecem e muitas possuem uma visão incompleta, ou errônea sobre. Basta ver quantas pessoas sabem que RPG neste caso não é “Reeducação Postura Global” nem “ah, os satanistas de Ouro Preto” muito menos “Final Fantasy, cara, legal! Fechei o X e já to começando o XII!

Infelizmente o RPG não é tão divulgado ou acessível quanto outras formas de diversão seja pelo preço elevado de livros, por ser uma atividade em essência intelectual – e atualmente no Brasil a grande maioria não querer nem saber de ler um livro – e, portanto pouco atraente, por muitas vezes depender de material em outro idioma, enfim. Claro, muitos desses pontos já foram minimizados hoje em dia, muito desse perfil já mudou embora não esteja ainda dentro dos padrões que gostaríamos, mas é um começo. O que quero levantar aqui é que você pense enquanto jogador/narrador qual o seu papel em divulgar positivamente a prática do RPG.

Tenha em mente que o RPG demanda inicialmente a leitura. Embora narradores consigam explicar cenários e regras a jogadores novatos de forma simples sem isso, eu defendo a necessidade da leitura do livro básico do cenário que está sendo jogado. O jogador tem o contato direto com o material, formando a própria opinião e visão sobre aquilo que vai jogar, ao invés de depender da visão já interpretada por outra pessoa. Isso sem falar muito das outras vantagens da leitura como melhoria da escrita e aquisição de vocabulário, interesse despertado por outros assuntos, já que livros de RPG geralmente possuem referências a outras obras e mídias, aprendizado de idioma estrangeiro, discussões sobre pontos de vista relacionados aos cenários e regras, etc. Portanto se você não gosta de ler, reveja seus conceitos sobre tal e se o RPG é realmente uma boa para você.

Tome cuidado com a forma como você expõe o seu jogo e a sua postura quanto a isso. Especialmente se você pratica o LARP (Live-Action Roleplay) fique atento àqueles que estão de fora e não sabem o que você está fazendo. Num primeiro momento pode parecer divertido assustar aquela vizinha de quem você não gosta muito fazendo-a ouvir coisas como “Morra, demônio maldito!” ou “Eu vou cortar a cabeça daquele monstro fora com meu machado”, mas isso fará com que ela entenda e aceite menos ainda o que você está fazendo e isso só contribuirá com a visão deturpada que a população tem do jogo.

Não torne também o RPG uma atividade hermética, só destinada a poucos iluminados, ocultando-o dos outros. Quando a oportunidade surgir, aproveite para explicar claramente do que se trata, assim como os benefícios. Acho legal citar aqui duas experiências que tive relacionado a isso.

Até hoje, tenho o hábito de carregar algum livro comigo quando saio de casa pois tenho o hábito de ler enquanto estou em ônibus. Eventualmente carrego algum livro de RPG para este fim. Certa vez voltando da faculdade à noite, estava lendo o livro que fala de lobisomens em cenário oriental, em inglês, quando reparei que um senhor de meia idade sentado ao meu lado, olhava pro livro com curiosidade. Começamos a conversar, pois ele me disse ser professor de inglês e ficou intrigado primeiro por me ver lendo algo em inglês no ônibus, e em segundo pelo texto tratar-se de “orientais que assumiam formas animais e lutavam pelo bem da natureza”. Conclusão: passei uns 25 minutos explicando para ele sobre o que era o RPG, como funcionava. Ele ficou tão interessado que me disse que leria mais a respeito pois acharia interessante aplicar algo do gênero em suas aulas.

Minha outra experiência foi quando fazia meu curso de inglês. Nos foi pedido que preparássemos uma apresentação que durasse meia hora sobre qualquer tema e usando as ferramentas que quiséssemos. Preparei uma apresentação de 10 minutos sobre o que é o RPG e como ele funciona, apenas para apresentar a quem nunca viu na vida, e durante os 20 minutos restantes, eu narrei uma curta aventura para a professora e colegas de classe sem sistema definido, usando dados em rolagens rápidas (vocês não têm noção do espanto e fascínio que um dado de 10 lados é capaz de exercer!), personagens prontos muito inspirados em contos de fadas (por ser uma realidade que todos conhecem). Resultado: nota máxima no curso de inglês e horas de conversa com professora e colegas sobre o assunto!

Portanto, pense no RPG não só enquanto você está com seus amigos reunidos, mas também nas outras e em como você pode colaborar para que mais gente conheça e se divirta da mesma forma que você.

Autor: Elcio Jr.

Sobre Colaboração

Artigos publicados por leitores ou ex-autores do blog, que gentilmente colaboraram conosco ao longo dos anos. Artigos de opinião não necessariamente expressam a opinião das autoras do blog; traduções e resenhas têm suas informações checadas.

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