Drive Thru RPG

Prelúdio: Lanterna

16/08/2010

Isto é o que se consegue com um diploma, uma merda de trabalho e me enfiar em quatro ônibus por dia. Parece que tossir foi a única coisa que aprendi com a minha faculdade. Se soubesse o que os malditos cigarros me levariam a fazer escolheria outro vício. Meus sonhos e aspirações também se converteram em merda. Só quero um trabalho bom e seguro que me tire da bancarrota. Vinte anos e meia vida tossindo, e aqui estou como supervisor de manutenção de um complexo de apartamentos.

Supervisionar esse lugar significa que tenho que ficar aqui para ajudar aos inquilinos vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Todos e cada um dos inquilinos tem alguma queixa sobre seu apartamento. A senhora do 410 se queixa de um problema com a calefação. Isso significa ir ao sótão. Odeio ir ao sótão. É escuro e úmido, sem contar os barulhos não identificáveis e os odores acres. Os sótãos me arrepiam. Evito subir a eles de todas as formas. Mas ela fez quinze ou mais queixas e ameaçou chamar o proprietário. Decidi ir conferir.

Com a caixa de ferramentas na mão, respiro fundo e me aventuro no terreno desconhecido. O interior é quase sem luz e tudo que eu quiser ver tenho que ver por faixas. Nunca me ocorreu que as lâmpadas fossem uma boa invenção. Agora amaldiçôo a minha pindaíba.

O depósito é uma ruína. Tudo o que vejo é uma caótica distribuição de caixas e móveis cobertos com lona e amontoados atrás de uma malha de cabos oxidados. Cada objeto está cuidadosamente etiquetado com o nome do seu proprietário e o conteúdo de cada caixa. Em cada uma das paredes, três janelinhas estão lacradas com ripas. A pouca luz invernal se filtra por entre elas e colore o lugar com um brilho sobrenatural. No trecho, um labirinto de canos de cobre e PVC que se entrecruzam no caminho como teias de aranhas.

Começo a tossir ao respirar o ar parado. Pensei que os doutores e os cientistas haviam encontrado uma cura hoje em dia. O pó dança diante do facho de luz da minha lanterna. As gotas d’água se condensam ao redor das juntas dos canos que eu procurava… Ah, alí está o culpado. Abaixo a caixa de ferramentas e dou uma olhada rápida e paciente. Tudo parece estar bem. Não entendo. O que aconteceu?

/Crash!/

O ruído me fez lembrar de todos os filmes de terror que eu assisti. Jason, Michael e corpos delgados que não posso ver passam pela minha hiperativa imaginação. / Oh borra botas! / Dou a volta imediatamente e examino o lugar, tomando o cuidado de não dar as costas a nenhuma coisa escura. Apesar de querer sair cagando de medo, a curiosidade é mais forte. Tenho que encontrar a causa do ruído.

É então que a vejo. Escondida entre as caixas, em uma abertura na parede. Ela com medo por eu tê-la descoberto. Eu também com medo. Um pigarro subiu da minha garganta tão alto que deveria dar pra ouvir da esquina.

Aponto a lanterna diretamente para sua cara. Ela não se encolhe.

“Que merda você faz aqui menina?”. Minha voz soa espessa. “Há um monte de objetos perigosos aqui em cima, poderia se machucar”.

Nada. Só dois inexpressivos olhos me encarando.

“Onde estão seus pais?”. Outra vez o pigarrear. Resisto à tentação de cuspí-lo. Menininha horripilante. “Nunca te vi por aqui”.

Desviando o olhar de mim, ela sussurra: “Não tenho pais. Não é culpa minha. O pai nunca me quis e a mamãe apanhava de um homem mau de roupa colorida, e eu não queria ser um peso pra ninguém”. Meu deus. Ela é tão jovem.

Depois de uma longa e incômoda pausa, me arrisco a perguntar “O que quer dizer com ‘homem mau’?”.

“O homem mau é o homem para quem a minha mão trabalha. Ele bate nela quando ela não lhe dá dinheiro o bastante. Me assustei e saí correndo. Ela nunca ficava comigo mesmo…”.

Puta merda! Mas muito comum. Trago o tubinho de nicotina para perto e me aproximo um pouco mais. “Como se chama menina? Onde mora?”.

“Me chamo Katryn e se supõe que não devo falar com desconhecidos”

/ Menina esperta. / “Bem, vai ter que falar comigo. Especialmente se quer minha ajuda. Agora…”.

“Não preciso da sua ajuda.”, disse, desafiando. “Agora esta é a minha casa. Na realidade nunca estou sozinha. Tenho a Sam e meu sonhos, eles me fazem companhia. Ninguém mais me quer.” Disse isso valente como as crianças sabem fazer, mas com tristeza nos olhos. Tem medo de viver nas ruas. Desprezou seus pais e quer ir para casa. O orgulho e o medo fazem com que não volte. Não confia em mim e a compreendo perfeitamente.

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“Não desprezou sua mãe?”.

Uma pausa.

“Ninguém me quer”. Seu sussurro quase se perde. Há lágrimas por trás dessa voz de menina valente. “Uma vez a polícia me encontrou e tratou de me devolver. Mas eu os detive. Eles não nos incomodam mais, a mim e ao Sam. Essa é a minha casa.”

/ Parou a polícia? / Sacudi a minha cabeça. Este lugar não é um lugar para uma criança crescer. Frustrado, incapaz de contestá-la, a observo. Linda coisinha. Não tem mais de doze ou treze anos. Talvez menos. As ruas são um lugar triste para uma criança.

Seus escuros olhos castanhos observam através de seus escuros cabelos negros que caíam por seu rosto. Sua frágil figura mostra a vivência nas ruas por suas roupas, tão velhas que quase não se viam as cores. Não tinha sapatos.

Tinha poucas cosias. Faz frio aqui em cima e uma desbotada manta amarela é sua única proteção. Agarra-se a um urso amoroso sem olhos. Esses, suponho, seja o Sam. Fora o urso, ela está sozinha. A situação não é a que eu poderia chamar de agradável.

/ Desde quando está assim? / A raiva aflora: como pode a sociedade permitir isso? A qualquer um? Ela poderia ter sido a minha filha. Poderia ter sido eu. Fico em dúvida entre oferecer ajuda e deixar que se vire por si só. Ninguém quer viver assim, mas ninguém quer ajudar. Se a nossa situação fosse o contrário, alguém iria me ajudar? Provavelmente não.

Me lembro do sanduíche na minha caixa de ferramentas. Pego e ofereço. Vacilante, indecisa, estende a mão para pegar o sanduíche envolto em plástico. Nossas mãos se tocam. Acontece de repente, como um arrepio.

“Posso ver a morte em você.” me diz. “Mancha a sua aura”

/”Quê?”/

Sua voz se torna profunda. “A morte, sua tosse. Deveria ser mais cuidadoso com o que põe pra dentro.” De repente preciso sair fora.

“Eeeeh… Sim, Katryn. O que você disse.”. Procuro em meu bolso a minha surrada e muito vazia carteira. “Toma, aqui tem 20 dólares. Sei que não é muito, mas não tenho mais.” Meus dedos tremem ligeiramente e não é por causa do frio do ambiente. “Pega e come algo. E procura um lugar para se abrigar. A vida aqui em cima não é melhor que os lugares…”

Ela, silenciosa, recusa o favor. Me pego quieto como um idiota durante mais de um minuto. Sua vontade de viver luta contra o orgulho, inclusive devolve o sanduíche. O Orgulho ganha, adivinho. Encolhendo os ombros, guardo o dinheiro. Nem sequer me despeço quando vou embora devagar.

Ainda desejo que ela tivesse pegado o dinheiro. Era o mínimo que poderia fazer sem me envolver demais. Olho para ela uma última vez antes de desaparecer escadas abaixo.

No alto das escadas apago a lanterna. Volta a estar escuro aqui embaixo. Mais escuro do que desejaria que estivesse. Não poderia viver ali. Espero que não fique muito tempo.

Mais tarde, desço de novo para ver como está. Nada. nem sequer a embalagem de plástico. Talvez tenha encontrado o caminho para fora. Talvez tenha voltado para casa depois que falei com ela. Assim espero. Tinha os olhos mais tristes que já vi. Não estou certo de como conseguiu descer. Não estou seguro de que voltarei a encontrá-la.

Havia algo raro nessa menina.

Não tossi nas últimas horas.

Fonte: Destiny’s Price
Autor: Jaymi Wiley
Tradutora: Eva 

Sobre Eva

Escritora, tradutora e revisora, bruxa feminista, maga da Dragão Brasil, Oráculo do Livro dos Espelhos e editora da Aster Editora.

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