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Os Nefandi: A Ruína dos Deuses – Parte 2

10/12/2012

Santo Lúcifer me ouça
Orando a Ti – nessa Véspera – de Todos os Santos
Alto seja o preço mas então nada é de graça – minha alma vai – agradecidamente negociar

All Halows Eve – Type O Negative

Aviso: Este artigo é recomendado para maiores de 18 anos e pessoas maduras. Se você é sensível a temas Black Dog, não entende que RPG é fantasia e imaginação e que o Clássico Mundo das Trevas é para mentes maduras, não continue lendo o texto – talvez não seja apropriado para você. Nefandi não são caras legais, não são herois. Se você leva mesmo a sério alguma coisa escrita neste artigo, favor procurar um psiquiatra.

 

Hoje decidi retomar o artigo sobre os Nefandi. Aqui você pode ver onde trato do surgimento dos cultos demoníacos no Clássico Mundo das Trevas, e aqui a primeira parte deste artigo onde trato do surgimento do caos e seu apaziguamento nas cidades antigas. Será que o caos um dia simplesmente não existiu? Eu sinceramente duvido.

A seguir, traduzi mais alguns trechos do mito herético defendido por alguns Nefandi e que está presente no livro Infernalism: The Path of Screams (e os primeiros trechos você pode encontrar nos dois primeiros artigos sobre eles). Depois dos trechos traduzidos, abordo mais diretamente um pouco mais da história dos Nefandi, na esperança de que ajude os Narradores a construir inimigos mais profundos para os personagens de suas mesas de Mago: A Ascensão (ou mesmo de outros cenários do Clássico Mundo das Trevas, mas sinceramente não quero nem imaginar o horror de vampiros, lobisomens ou changelings – ou aparições, ou caçadores –  enfrentando os verdadeiros Servos do Mal).

Não vou me estender muito, já que esse artigo ficou um pouco grande. Espero que vocês curtam – mas não muito, ou vai rolar Gilgul por ai (viu Manni? u.u).

A Ruína dos Deuses – Parte 2

Compre o Infernalism:The Path of Screams

Em suas cortes, as emanações tremeram. Para seduzir o Homem, eles teceram grandes projetos e moldaram impérios com suas promessas e mentiras. Vários deuses tomaram amantes entre os da nova raça, mas logo descobriram que tais amantes sobressaíam-se a eles. A maioria foi destruída antes que pudesse se erguer contra eles, mas vários – como Lilith, Manu, Xue e o Assassino de Parentes Caim – sobreviveram e ascenderam a divindades. Furiosas, as antigas deidades lançaram maldições sobre estes poucos; em vingança, os ascendentes derramaram seu próprio sangue sobre a terra e convocaram tempestades para envenenar os céus.

Alguns deuses ofereceram presentes, e não punições. Aqueles homens que dobravam seus joelhos diante de altares e matavam seguidores de outros deuses receberam grandes favores e verdades místicas. A raça antiga foi testar a coragem da humanidade. Alguns vestiram-se nas peles humanas e andavam entre eles como conquistadores; outros assumiram máscaras místicas e conquistaram os mortais como amantes ou divindades. Mesmo os sonhos entraram no jogo, libertando fantasias humanas e trazendo-as à vida.

Os reis-ferais coçaram suas cabeças em espanto; alguns forjaram pactos com os recém-chegados; outros simplesmente os devoraram. A partir disso, o Homem aprendeu a Lex Praedatorius – a Lei do Predador – que simplesmente diz: “Há aqueles que devoram, e aqueles que são devorados”. A lição não seria perdida entre o Homem.

Mas nenhuma fúria nascida de deus ou ancião poderia abalar a obra-prima das Sombras. Com cada passo que o Homem deu, os mundos do espírito e da matéria se afastaram. Demônios e anjos procuraram orientar seus passos, mas apesar de seus poderes, a vontade humana permaneceu livre.

Muitos deuses procuraram purgar a mácula. Eles teceram metamorfos de peles de animais e homens e, em seguida, os enviou para abater os rebanhos humanos. Eles elaboraram jardins onde todos os elementos se reuniam como um, e então amaldiçoaram aqueles humanos que transpassaram seus domínios. Eles ensinaram mágikas aos homens, então eles puderam matar uns aos outros, e forjar infernos para onde as almas desobedientes iriam depois. Ainda assim, a mão do Homem se tornou forte, e os deuses tomaram grandes medidas. Eles teceram ilusões para cegar a humanidade. Eles prenderam mandamentos em pedras e mataram aqueles que não obedeceram. Eles enviaram incêndios e inundações, mas ainda assim, a humanidade perseverou. Os deuses desencadearam a peste, e embora  os gritos do Homem tenham rasgado as próprias nuvens, o seu espírito não morreria.

E em seu Vácuo, o Absoluto riu com alegria.

Ouvindo isso, as emanações mais sombrias sorriram. Elas, também, ouviam a música do Vácuo no coração dos homens.

Nascido na Sombra, o Homem continha Luz e Escuridão em cada mão, mas ficou entre eles, equilibrando seus dons. Quando sentia compaixão, o Homem podia envergonhar a própria Luz. Mas quando se enfurecia, nenhum deus ou fera ou raça ancestral podia superar a crueldade humana. Quando as tribos inventaram as torturas, até os demônios se impressionaram. Conforme impérios cresceram, reis sacerdores cobriram pirâmides de peles humanas e prenderam crianças vivas entre paredes de seus túmulos. Mães gritaram quando bebês não nascidos foram arrancados de seus ventres, e seus gritos espelharam o êxtase do Vácuo. Sob o olhar ardente da Luz, essas sombras vivas construir um mundo de ouro e cinzas. Os Deuses Sombrios viram isso e ficaram extasiados.

E assim como os Deuses da Luz esforçaram-se para acabar com a humanidade, os outros fizeram um pacto para salvar a raça.

Bruxos-Sacerdotes e Feitiçaria Gélida

Esse pacto começou com os mais corajosos, aquelas pessoas que abandonaram as confortáveis fogueiras pela noite aberta. Dando as costas para seus primos medrosos, esses párias falavam sozinho com a Escuridão. E às vezes a Escuridão respondeu…

E às vezes eles voltaram para suas antigas fogueiras com segredos em suas mãos.

Em terras selvagens, os renunciantes se isolaram nas montanhas e nas florestas. Nus perante os frios ventos, eles dançaram com prazer e sob a lua. Os demônios da floresta e os djinn das areias foram até eles e os ensinaram estranhas Artes de tessitura e transformação de formas.

O custo desses pactos foi surpreendente. Um bruxo-sacerdote abandonou toda a humanidade e mergulhou até a cintura no sofrimento. Ele esfolou bebês e jogou virgens aos touros no cio. Ele desenhou na própria carne usando espadas quentes de bronze e selou seus entes queridos em catacumbas esquecidas onde eles gritavam por suas vidas longe do subterrâneo. Às vezes ele tomava a Escuridão em sua alma literalmente: em Coifas labirínticas, os Devoradores dos Fracos transformaram-se de dentro para fora, invertendo cada boa paixão em um mal que tudo consome. Mas para essas dores (que logo se tornaram êxtases), um bruxo-sacerdote recebeu os Nove Segredos da Criação, e aprendeu a usá-los a seu favor. Como um aprendiz, ele deu a si mesmo um espírito como senhor ou amante; em troca, ele recebeu bênçãos que nenhum deus “bom” ofereceu.

O Deus do Livro – E Lúcifer

Com o tempo, um deus se elevou acima de todos os outros. Dentro de Seus domínios, todos os outros deuses foram jogados por terra e silenciados, seus caminhos negados e seus ritos proibidos. Mas até mesmo ele, esse Deus-Acima-De-Todos, tinha um gêmeo Sombrio, o Adversário Satã. Conforme o Um Deus se erguia, seu povo chorava de medo ao nome de Satã. Por compreenderem que a Noite precisa seguir o Dia, e que nenhum pecado pode ser renegado para sempre.

De acordo com o Povo do Livro (os homens que seguem as leis de Moisés, Khristos e Maomé), não há emanações da Luz, Sombra e Escuridão. O deus deles é O Senhor Verdadeiro de Todas as Coisas, Proclamador da Luz que criou Terra, Céu e Inferno. Este Deus da Luz ordenou a Divina cadeia do ser, e definiu  as bases do universo em sete grandes dias. Ele estabeleceu uma corte celestial e a povoou com anjos. De Seu trono de fogo, Ele trabalhava neste mundo e estabelecia uma ordem Terrena para estabelecer aquela do Céu. E isso foi bom… ou assim Ele pensava.

Ironicamente, a chama mais brilhante a Seu serviço, Lúcifer o Portador da Luz, o primogênito dos anjos, se rebelou contra esta ordem.

Em fúria, Lúcifer tornou-se Satã, o Adversário eterno, e cuspiu na cara do Todo Poderoso.

E assim, Satã se tornou um símbolo apropriado para o Adversário dentro de todos nós. Mesmo para o coração Escuro do Senhor da Luz.

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Muito tempo depois do Éden, este Senhor da Luz proclamou todas as outras religiões como heresia. Com trovão, chama e milagres, Ele derrubou os deuses em Seus Domínios e tomou seu povo como Seu próprio. Os Deuses Antigos lutaram contra Ele valentemente; mártires de todos os credos foram serrados ao meio, fervidos vivos, servidos como alimentos para feras e partidos em pedaços, mas a maré do Único Senhor Verdadeiro não pode ser parada. Relutantemente, os Deuses Antigos vestiram máscaras de Anjos Caídos e recuaram para as sombras.

E assim, esse Deus teceu cadeias de eternidade. Com elas, Ele prendeu todas as almas dos homens à Luz ou à Escuridão. Aqueles que se recusaram a ser acorrentados ao Seu Livro foram banidos para o ermo ou morreram sob lâminas ou fogo.

E foi bom.

Ou assim Ele pensou.

Mas Satã ainda está rindo. Desde o surgimento do Império Romano, seu riso tem parecido mais alto do que nunca.

* * *

A Ascensão do Monoteísmo, o Desespero Pagão e a Corrupção

Infelizmente, as mesmas grandes civilizações que derrubaram os pais dos pais dos Nefandi os ajudaram a ascender novamente. Enquanto as velhas religiões politeístas e animistas sempre souberam que o mal possuía muitas faces e nomes, as novas religiões monoteístas tentaram substituí-las. Ainda que as religiões monoteístas lhes atribuísse muitos nomes, seu arquétipo era o mesmo: o de Lúcifer, Satã, Iblis. Pequenos grupos dissidentes e pequenos cultos dispersos que sobreviveram se unificaram em torno da adoração de tal arquétipo. E como o deus dos livros sagrados das novas religiões monoteístas era muito inflexível, muitos que não conseguiam viver dentro dos novos caminhos religiosos passavam para o lado destes novos Infernalistas, ao mesmo tempo em que aqueles que perdiam sua fé ou se tornavam hereges também passava para o lado dos novos corrompidos, e suas fileiras passaram a crescer rapidamente.

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No Oriente Médio, os Ahl-I-Najasa (Os Imundos) surgiam para tentar os estudiosos Batini a provar sua pureza, fazendo com que eles enfrentassem terríveis provações. Alguns falharam. Uma dinastia nefândica iniciou a Era do Rei-Demônio, um oásis negro no coração do deserto. As maravilhas sombrias de Sodoma e Bhât foram revisitadas, tesouros terríveis eram trazidos para essas cidades controladas por eles e se juntavam a novidades torturantes. As primeiras Coifas foram criadas (ou encontradas). O que são, ou de onde realmente vieram? Não se sabe, mas se sabe de seus efeitos: elas revertem, pervertem, invertem, destroem e reconstroem o próprio Avatar de um Desperto. E foi ai que o Mal ganhou seus piores defensores. Estes novos magos, cujos Avatares haviam alcançado um novo… estágio na Trilha da perversidade, escolheram para si o título utilizado pelos antigos cultos da cidade de Bhât. Eram os primeiros verdadeiros Nefandi.

No Império Romano, e depois de sua queda, o cristianismo e o poder da Igreja Católica criou uma sociedade polarizada. Jesus pregava a salvação, o amor e a paz, enquanto por toda parte havia caos, guerra e sofrimento – era muito fácil, por pequenos conflitos com a Igreja ou os religiosos que a compunham, ser declarado herege. Os Decaídos se aproveitaram: líderes, reis, governantes, novamente se voltavam aos demônios em busca de mais poder, principalmente quando tentavam se defender da regra daqueles tempos, onde ou se liderava, ou se era um servo. A Lei do Predador trouxe de volta a antiga lei do mais forte, e novamente, os seres do Vácuo sorriram.

Mas a culpa para que a decadência se espalhasse como um câncer não foi apenas dos monoteístas. Muitos povos pagãos, desesperados por serem declarados selvagens e hereges, se juntavam a turbas verdadeiramente corrompidas para combater a civilização. O caos estava de volta em todo o mundo.

Uma vez mais, magos de todos os grupos e facções varreram o mundo, caçando e matando os Nefandi. Em 613, a fundação do Islã marca o fim da Era do Rei-Demônio. Na Europa, a Ordem da Razão, na China os Wu-Lung, e grupos de magos do que viriam a se tornar as Tradições, todos procuravam caçar os servos mais dedicados da Entropia em seu pior aspecto.

A Inquisição não ajudaria muito no meio desse caos todo. Mas pra tudo há controvérsias.

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Fonte: Infernalism: The Path of Screams, Book of Madness e Book of Madness Revised
Autora/tradutora/ resenhista: Eva

Sobre Eva

Tradutora, revisora, escritora e sonhadora. Anarcafeminista em constante estado de amor e horror com o mundo. Editora no Livro dos Espelhos.

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