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Os Arquétipos na Fantasia – Parte 2

07/12/2012

Essa é a segunda e última parte do artigo enviado por A. Z. Cordenonsi, autor de contos de fantasia e ficção, do livro Duncan Garibaldi e a Ordem dos Bandeirantes e professor na Universidade Federal de Santa Maria, falando sobre arquétipos de personagem em fantasia.

E ai, vocês costumam trabalhar com arquétipos de personagens de fantasia quando estão criando seus personagens e NPCs para as mesas de RPG?

Se ainda não viu, a primeira parte você encontra aqui! ^-^

Os Arquétipos na Fantasia – Parte 2

O quarto arquétipo é ARAUTO, aquele que traz o herói ao seu chamamento. É ele que instiga o personagem a se lançar na aventura. Ele pode ser representado por um personagem ou fato. Muitas vezes, o mentor assume esta posição. Em alguns casos, a primeira manifestação da sombra representa o ARAUTO.

  • O personagem sempre sabe o que acontece no mundo. Ele não gosta de isolamento e conhece todas as novidades e as fofocas. Exemplos: Dionísio (série Percy Jackson);
  • O personagem presta atenção nos detalhes e acredita no destino. Ele dá atenção ao futuro. Vê sinais do futuro e está alerta à suas mudanças. Exemplos: Nostradamus; Gandalf (O Senhor dos Anéis) assume este papel ao reconhecer o anel;
  • O personagem está atento aos rumores. Poucos o conhecem. Ele permanece escondido. Exemplos: Aragorn (O Senhor dos Anéis) assume este papel ao se apresentar como Passolarg; Silas (O Livro do Cemitério).

O próximo arquétipo é o do CAMALEÃO. É um personagem que muda de aparência ou espírito, o que torna impossível prever suas ações. Ele determina a imprevisibilidade da história. Ele pode ser um aliado do herói ou da sombra. Vários personagens pode assumir este arquétipo, mesmo que momentaneamente.

  • O personagem gosta de independência e os amigos não sabem o que ele está pensando. Ele não aceita a autoridade e parece sempre busca de algo. Ele acredita em si mesmo. Exemplos: Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Wolverine (Marvel)
  • O personagem nunca fica em um trabalho, está sempre se movendo e os colegas raramente sabem o que ele está pensando. Exemplos: Han Solo (saga Star Wars), Aragorn (O Senhor dos Anéis).
  • O personagem é misterioso e tem poucos amigos. Os colegas raramente sabem o que ele está pensando. Exemplos: Prof. Severo Snape (série Harry Potter); Dionísio (série Percy Jackson).

O sexto arquétipo é a SOMBRA, o vilão, o inimigo a ser batido. Ele pretende destruir o herói e este pode ser o seu único objetivo ou a derrota do mesmo é algo necessário para uma conquista maior. Ele impõe desafios ao herói e pode representar um reflexo negativo do mesmo. Ele pode ter uma visão simplificada da realidade ou justificar suas ações em males feitos contra ele mesmo.

  • O personagem pretende ganhar de qualquer jeito. Ele tem planos ambiciosos. Ele é eloquente e frio. Quer controlar os outros e se associa a colegas mais fracos do que ele. Exemplos: Moriarty (Sherlock Holmes), Saruman (O Senhor dos Anéis).
  • O personagem gosta de amigos que podem ser manipulados. Ele tem prazer em estar no comando. Ele tem prazer em ser cruel. Sua principal motivação é estar no topo. Ele mente com prazer. Exemplos: Hannibal Lecter (O Silêncio dos Inocentes), Voldemort (série Harry Potter);
  • O personagem acredita que está certo e fará tudo para chegar ao resultado desejado. Ele não percebe o mal que faz aos outros ou os justifica como resultado das maquinações do herói. Ele pode ser perturbado emocionalmente. Exemplos: Dr. Yueh (Duna), Luke (série Percy Jackson).

O PÍCARO é o último dos arquétipos. Ele representa o palhaço, mas representa também a mudança da realidade. Ele abre os olhos do herói para o ridículo das suas ações ou do que está acontecendo. Como outros arquétipos, este pode ser assumido por qualquer personagem em algum momento específico.

  • O personagem está sempre de bom humor. Gosta de surpresas e novidades. Ele gosta de fazer as pessoas darem risada. Ele ama a aventura. Exemplos: Bart Simpson (Os Simpsons), Pippin Tuk e Merry Brandebuque (O Senhor dos Anéis).
  • O personagem está sempre de bom humor. Ele gosta de celebrações. Ele não gosta de aventuras. Exemplos: Rony Weasley (série Harry Potter), Grover (Percy Jackson)
  • O personagem é emocionante, gosta de excessos e procura por algo diferente. Exemplos: Puck (Sonhos de Uma Noite de Verão), Tyson (Percy Jackson).

Obviamente, os exemplos apresentados anteriormente representam a minha leitura de cada história. Olhares diferentes podem classificar os personagens em personalidades diferentes ou até mesmo em arquétipos diferentes.

Entretanto, além dos arquétipos é necessário tratar a motivação do personagem. Porque ele se tornou um herói? Ou um pícaro? Ou mesmo uma sombra? Dificilmente uma narrativa terá sentido sem uma motivação adequada. Você pode fazer com que o seu personagem encontre a Excalibur atirada em um terreno baldio, mas ele não se tornará o novo Rei Arthur somente por causa disso. A motivação é construída pela história pessoal de cada um e pelo contexto onde o personagem vive. Se ele tem um lar amoroso e bem estruturado, dificilmente ele será um personagem rebelde (a não ser que este seja o plote da trama: por que ele ficou assim?). Ao mesmo tempo, um sujeito que sempre foi maltratado pelos pais provavelmente terá uma personalidade difícil. O contexto histórico também é importante: onde ele vive? Com quem? O país/reino/estado está em guerra? Contra quem? Há quanto tempo? Como ele sobrevive? Quem são seus amigos? Tudo isso deve ser respondido na elaboração do personagem, afinal, suas ações e seus diálogos se basearão nestas respostas.

Duas questões para o final: personagens mais ricos podem ser elaborados com a junção de várias características, desde que elas não fiquem conflitantes entre si. Você pode ter um mentor pícaro, mas tem que ter cuidado para não transformá-lo em um palhaço que cita Sócrates. Outra coisa está na fala de Jung, que repito: os arquétipos representam forças ou tendências à repetição das mesmas experiências. Ele traz consigo uma influência específica ou uma força que impele à ação.

Isso é verdade dentro de um determinado contexto. Mas, para um contexto completamente diverso do nosso, quais são as experiências que serão repetidas? Num mundo apocalíptico, alguém que caça outros humanos para sobreviver é um herói ou anti-herói? Como a sociedade o observa? Este é o comportamento esperado? Estas questões abrem possibilidades para novas experimentações.

Concluindo, os arquétipos na fantasia são pontos de partida interessantes para a construção de personagens. No entanto, cabe ao autor preencher as lacunas deixadas por este roteiro básico, construindo uma história de cada personagem que suporte a sua motivação. E nunca se esqueça de que um personagem, ao longo da trama, sofre influências da mesma. Ou seja, as consequências das suas ações e as dos outros podem transformar um personagem, pois a evolução da personalidade é algo que ocorre diariamente em nossas vidas.

Mas, no final, o personagem é seu! Molde-o, transforme-o, modifique-o! Tudo é possível na fantasia! Um melhor ou pior resultado é consequência direta da forma como isso foi feito.

A.Z.Cordenonsi

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Revisora: Eva

Sobre Colaboração

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