Apadrinhe o Livro dos Espelhos!

O Duplo na Relação Mago/Avatar – Parte 1

27/02/2012

Minha personalidade tornou-se um fardo para mim
-Oscar Wilde

Olá, pretendo discorrer sobre a relação do mago com o seu avatar e, para tal, vou me valer do cânone da literatura ocidental. Para além da discussão se o avatar é real, imaginário, espírito, essência, o tema do duplo é antigo na literatura. Começando lá pelo Gênesis, da Bíblia cristã, no começo, o homem era um, e Deus o corta em dois, quando esse um se enfraquece e a vida passa a ser uma busca pela metade perdida. Este conceito está em todas as religiões tradicionais, a dualidade entre alma e corpo, e a natureza dupla do homem que se estrutura por elementos diferentes. Existe também o mito da alma gêmea de Aristófanes, que consta no Banquete de Platão, que conta que, por orgulho, os homens tentaram tomar o trono dos deuses. Foram castigados e divididos em dois – este mito da alma gêmea seria a origem da eterna busca pela outra metade, arrancada dos homens pela espada de Zeus.

Esta dualidade, cindida e antitética, nos estudos literários tradicionais, nos remetem a imagens que representam o duplo como espelhos, gêmeos, sósias, cópias que povoam os mitos, as lendas, os folclores.

Num mundo em que a diferença e a antítese são sentidas como insegurança pessoal, de caráter, social, não é difícil compreender o drama dos magos. Antes mesmo da Revolução Industrial, eles eram sentidos como do lado negro, obscuro do mundo. Crescidos em comunidades em que a metáfora do ser dividido, como era aceitar aquela voz na sua cabeça, seu Daemon? Os mais lúcidos, ainda que crescidos em culturas onde a dualidade fosse um anátema, recorriam a certos recursos – seus Daemon (o avatar de Cruzada dos Feiticeiros) muitas vezes assumiam de anjos. Pense em Joana D’Arc, e na forma como vozes de santos (São Miguel, Santa Margarida e Santa Catarina) indicaram a ela quem era o verdadeiro herdeiro do trono da França, o Delfim, e você estará começando a compreender a forma como suas mentes poderiam processar a manifestação do avatar – ou uma das formas. Isso podia variar, de acordo com a origem cultural do mago, com o grupo em que estava inserido, seu paradigma e crenças, mas a idéia permanece.

Agora, a partir da Revolução Industrial, com a introdução da psicologia e as mudanças culturais, sociais e científicas, a compreensão do duplo passa a assumir outra característica. Mas, antes que isto ocorra, muita água passa por baixo da ponte.

Você se interessa por este tipo de teoria? Por favor, me deixe saber. Dependendo da recepção deste primeiro artigo, dou continuidade a eles, fazendo um esforço para não soar chata, ou, bem, “cabeçuda” demais. Até o próximo!

Autor: Eva

Sobre Eva

Tradutora, revisora, escritora e sonhadora. Anarcafeminista em constante estado de amor e horror com o mundo. Editora no Livro dos Espelhos.

Ver mais artigos de