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O Código de Ananda

15/08/2010

Transmitido ao Culto pelo próprio Sh’zar, o Código de Ananda descreve as restrições de comportamento e julgamento para todo o Culto. Não é exatamente um código legal ou um código de justiça, é mais como uma orientação para o comportamento aceitável. Sh’zar previu que alguns Cultistas iriam procurar abusar de seu poder sobre os outros, seja por desígnio ou por mal-entendido. Através do Código, ele esperava promover um nível básico de responsabilidade e evitar excessos piores de Cultistas que consideram Adormecidos pouco mais do que cobaias.

Inicialmente, o Código servia mais como uma forma de relação com as outras Tradições. Ao proclamar as virtudes do Código, o Culto poderia parecer menos como uma multidão desorganizada e mais como seguidores de uma forma razoável, ainda que um tanto arriscada, filosofia. Além disso, o Código ajudou a dar sentido à Tradição incipiente. Com um eixo forte de “faça e não faça”, o Culto pôde ver claramente que tipos de comportamentos e membros poderiam causar problemas posteriores. Sh’zar e seus divyas previram as dificuldades de aceitação do Culto nos anos posteriores, especialmente à Cultistas irresponsáveis que causaram problemas a outros magos (e Adormecidos). Através da aplicação do Código, os fundadores esperavam evitar que o Culto se tornasse superpovoado de hedonistas inúteis ou fanáticos perigosos e, assim, preservar os seus caminhos. Afinal, se o Culto enquanto grupo for longe demais, até mesmo os membros razoáveis e responsáveis sofreriam da reação resultante. Caçadas enlouquecidas às bruxas não reconhece inocentes.

No Culto moderno, os 10 princípios de Ananda permanecem como dogmas sagrados da bem-aventurança. O Código é, essencialmente, uma advertência para o Cultista seguir o êxtase pessoal, mas não torná-lo um problema para os outros. Ainda assim, jovens Cultistas ligam pouco para a memorização de regras e regulamentos. Divyas e Adeptos muitas vezes podem recitar o Código, todo ou em parte, mas seu aprendizado não é uma parte formal da iniciação. É a essência por trás do Código que conta, não a letra rígida das regras. O Código é uma lista de ideias, não de regulamentos.

Alguns grupos do Culto evitam completamente o Código. Embora eles ainda sejam considerados Cultistas devido às práticas compartilhadas, eles muitas vezes são vistos como irresponsáveis e perigosos. Cultistas como os da Aghoris quebram trechos ou todo o Código regularmente, vendo-o mais como uma regulamentação desnecessária de suas práticas. Cultistas mais tradicionais tomam tais violações muito a sério, e deste conflito decorre a pior luta interna do Culto. Finalmente, a linha da responsabilidade – o quanto é demais para os Adormecidos? – cria a fina linha que leva a guerra sobre Ananda.

I. Tu és Miraculoso: Portanto todos somos.
O cultista deve descobrir que Mágika e iluminação não são egoistas. Não centram-se unicamente nele. Mesmo o mais mundano dos homens fala, pensa e experiencia o mundo, fato que sozinho é um milagre maior do que um cosmo vazio poderia ser.

II. O destro que cospe sobre sua mão direita, descobrirá que a esquerda lhe falhará quando lhe for necessária.
Um gentil conselho para que cooperem entre si. O cultista pode ser poderoso individualmente, mas mesmo esse precisará de ajuda em algum momento. O cultista não deve tomar nada nem ninguém como certo (dele). Arrogância e abuso de outras pessoas simplesmente leva à deserção.

III. Cada moeda d’ouro rende duas iguais; cada ostentação cria um fardo. Também, cada moeda pega, transforma o resto em resto e um fardo desperdiçado cria escassez. Dessa forma um Vidente deve arcar com seus atos.
Isso é um equivalente próximo à lei metafísica do retorno em que as outras Tradições acreditam, essa é a regra da responsabilidade. O cultista tem uma responsabilidade a cumprir com sua comunidade de maneira ausente de egoismo. Poder Mágiko não cria formas para o engrandecimento pessoal; ela cria formas de compartilhar bons fortúnios com todas as pessoas.

IV. Algumas mentes repousam melhor Adormecidas. Não instigais aqueles que não Despertariam de outra forma.
Talvez um dos tópicos mais polêmicos do Código, essa regra aconselha os cultistas a não impor-se aos Adormecidos que não estão prontos para Despertar. Cultistas da oposição dizem que apenas pressionando a humanidade a passar seus limites, ela verá além. Cultistas mais racionais seguem essa lei e dizem que Adormecidos devem antes procurar o próprio êxtase, para depois serem ensinados novas formas de alcançá-lo.

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V. Verdades previstas nem sempre são verdades.
Aplicado tanto à previsão Mágika, quanto como metáfora, esse Código aconselha o Vidente a não depender unicamente do discernimento Mágiko. A experiência real vem da vida, não da Mágika. Mesmo o fato de prever futuro não o esculpe em pedra. Isso também quer dizer que qualquer declaração feita por qualquer cultista, não deve nunca ser confundida com fato. Sempre há possibilidades em aberto.

VI. Se um homem (ou mulher) quer rasgar-se às paixões alheias, deixe-os serem um, como que dilacerados por cães em desvário. Pois paixões são o cerne do Ego, e se elas sorvem sangue, também suas almas sangrarão
Nem sempre os jovens Iniciados tem noção do que significa “paixões dilacerantes” (rending passions). Em resumo, o Culto quer criar êxtase (que as vezes pode ser o resultado de práticas dolorosas), mas jamais alguém deve transformar uma fonte de prazer em uma de dor, medo ou terror. Cada paixão leva uma pessoa adiante. Despojar uma fonte de paixão e manchá-la é o mesmo que consumir esse indivíduo com amargura, ódio, raiva e medo. Tais vítimas não são impedidas de alcançar o êxtase para expandir suas vidas e espíritos.

VII. Deixe cada Vidente arcar com seus próprios atos, e se esses atos carecem de sabedoria ou gentileza, deixe-o ser posto ao lúgubre isolamento.
O senso de comunidade de Sh’zar vem através desta regra. O Culto requer comunidade para funcionar; cultistas que buscam outros como eles mesmos para treinar, aprender, serem parceiros. O Culto inteiro isola aqueles cujos atos foram considerados dolosos ou tolos. Alguns cultistas ativistas modernos sentem um pesar por causa dessa regra. O Culto não deveria ter responsabilidade sobre aqueles que usam suas práticas para fins perigosos? Mesmo assim, um cultista exilado à mais completa solidão raramente vai além, especialmente após fazer uns poucos inimigos no processo.

VIII. Humor esfria o sangue: Ira o faz esguichar.
Mestres das Tradições geralmente levam suas posições muito, muito a sério. Afinal, dizem eles, o futuro das práticas Mágikas curva-se perante cada palavra proferida e cada atitude sutil. Nessas situações, a ambigüidade torna-se perniciosa. Leviandades tornam-se ofensas, que acabam se convertendo em guerras entre Tradições inteiras. No fim, pessoas são simplesmente pessoas. Mesmo Mestres não deveriam levar-se tanto a sério, o Código adverte. Eras após qualquer mago morrer, o cosmo ainda irá continuar, então é melhor simplesmente levar a vida na base de passadas largas.

IX. Mesmo árvores partidas por relâmpagos podem germinar novos frutos.
Certa controvérsia cerca a interpretação desta regra. Alguns cultistas crêem que ela se refere especificamente às paixões sagradas, que mesmo em uma pessoa cujas paixões foram profanadas – uma vítima de estupro, viciado em drogas, ou um rebuçado – pode curar-se e aprender a desfrutar da vida novamente. Outros cultistas vêem essa regra como figura de compaixão, rogando que mesmo um cultista que pecou para com o Código pode achar redenção. Todos os cultistas concordam que é uma instrução para manter a esperança, pois milagres acontecem nos momentos mais improváveis da vida.

X. Um tolo não sente medo; Um Adormecido permanece algemado por ele; Um Mestre transcende o medo, mas sempre lembra de sua sabedoria. É bom hesitar: tolice é curvar-se ao terror.
Essa última sentença refere-se à temeridade. Muitos Aprendizes tornam-se apaixonados pela idéia de confrontar seus medos, mergulhando de cabeça, encarando qualquer coisa perigosa. Essa prática rendeu um monte de cultistas mortos. Um vidente deve balancear sua sagacidade com sua ambição. O medo diz aos cultistas algo – é um lembrete de riscos e perigo. Ignorar isso é incitar a própria tolice. Não se deve, no entanto, ser escravizado pelo medo. Esteja ciente dos riscos, mas não se afaste deles.

Fonte: Tradition Book Cult of Ecstasy Revised – páginas 35 e 36
Tradutora: Eva

Sobre Eva

Escritora, tradutora e revisora, bruxa feminista, maga da Dragão Brasil, Oráculo do Livro dos Espelhos e editora da Aster Editora.

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