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O Arquétipo da Maldade

08/02/2012

 Tenho conversado com outros Narradores, e muitos encontram dificuldades para encaixar os Nefandi como antagonistas em suas crônicas. O post de hoje tenta traçar algumas linhas, para que se compreenda melhor alguns aspectos do que é o mal sob diferentes óticas.

Ainda que eu levante apenas conceitos, talvez ajude Narradores de mesas mais maduras a compreender o que pode ser tratado como mal.

Maldade Psicológica

O mal não é, simplesmente, o diabo, a insanidade ou a ausência do bem. Do ponto de vista psicológico, o mal envolve causar sofrimento intencionalmente. Não podemos vivenciar tudo, todas as coisas, ao mesmo tempo, nem simultaneamente, nem gostar de todas as coisas da mesma forma. Eventualmente, nosso cérebro esquece de algumas coisas que não gostou de experimentar, mas essas coisas ainda ficam lá, escondidas – nossas fraquezas pessoais, situações vergonhosas e humilhantes, momentos de forte rejeição, de experiências dolorosas, de crueldade, abandono, desesperança. Tudo isso passa a fazer parte do que Jung chama de sombra. Uma pessoa realmente sábia encara sua sombra, sabe como calar a sua voz em prol de um desenvolvimento enquanto pessoa.

Enquanto a sombra é a soma de todos os problemas de um indivíduo, reais ou imaginários, alguém que realmente se devote ao mal (como é o caso dos vilões nefândicos) aprende a encarar a própria sombra e tornar-se um com ela. Neste ponto, ele passa ao outro lado do espelho, abandonando a luz e a esperança, absorvendo-as e devolvendo-as como um reflexo distorcido do que já foram, em forma de escuridão e desesperança, aumentando o sofrimento de sua vítima, buscando, com isso, distorcê-la também, torná-la também em sombra.

Não se pode tratar os barabbi, enquanto Narrador, como indivíduos que tem esperança de redenção, cura, perdão. Eles foram tão longe na própria crença de que são o reflexo invertido que contaminam tudo por onde passam, não deixando meramente a destruição (que pode ser consertada), mas a corrupção da própria essência do que é a existência, distorcendo almas de tal forma que, caso tenham sucesso, tais almas serão, também, agentes distorcidos devotados unicamente à sombra da existência.

Eles não têm redenção – ainda que os personagens dos jogadores possam ser levados a realmente crer que podem ajudá-los a voltar ao estado anterior de “graça”. Não apenas do ponto de vista metafísico, mas psicológico, aqueles que passaram pela Coifa se tornaram um reflexo invertido do que um dia foram. É um caminho sem volta, e eles ficarão felizes em empurrar outros na direção de suas próprias sombras interiores, o que farão alegremente por aqueles que tentarem “salvá-los”.

Maldade Espiritual

Onde acaba a psique e começa a alma? O que é a alma? São dois conceitos tão confusos de se distinguir dentro do cenário de Mago: A Ascensão que as próprias Esferas Mente e Espírito possuem limites difusos. Mas algumas questões podem ser levantadas, sem tentarem encerrar uma verdade absoluta em si mesmas.

Mais uma vez, não estou falando só do diabo, seja o do cristianismo, seja o de outros povos. Muito menos apenas da Wyrm – existem entidades ancestrais, esquecidas da humanidade, mas que ainda sussurram nos sonhos sombrios de alguns indivíduos.

Existe um ponto, além da própria maldade, em que a alma, a essência, se corrompe de um jeito que não é possível voltar atrás. O conjunto das almas, dos espíritos, das mentes, podem passar além da dor, sofrer além da crueldade, e então, se distorcem além de qualquer cura – talvez o sofrimento, ou a destruição, para que sejam recicladas pelo Ciclo, traga alguma esperança, ainda que ínfima.

Os Nefandi não são apenas pessoas que sofreram muito e então se tornaram maus. Não são indivíduos maus – são servos e agentes da própria maldade na Tellurian, o reflexo invertido daqueles que buscam a Ascensão do mundo. Mais do que meramente “maus”, eles se tornam a própria maldade. E, como tal, o que eles procuram é a Descensão, um estado de queda final, absoluta, onde seus Lordes Sombrios reinem eternamente. E comprometeram não só suas almas nisso. Foram além de vender a alma ao diabo, mas “venderam” seus próprios Avatares, apostando o todo nisto.

Não existe “males que vêm pra bem” quando estamos tratando dos barabbi. Enquanto os magos como um todo encarnam a essência da mudança, apesar de todos os males que possam vir a causar e erros que possam vir a cometer (levados principalmente pela arrogância, pelo Orgulho), os barabbi decidiram encarnar o oposto, a essência de uma corrupção infinita, da crueldade suprema, e em tal estado e sofrimento absoluto, procuram algum tipo de iluminação sombria.

Mantenha isso em mente quando for usar os Nefandi como antagonistas em suas crônicas. São aspectos que não ficam aparentes todo o tempo – afinal, a corrupção tem suas formas de parecer absolutamente inocente e encantadora – e que, por isso mesmo, podem conduzir aos jogadores a muitos enganos, antes de finalmente se darem conta do que estão encarando. Ou então, serem arrastados para o abismo antes que percebam…

Autor: Eva

Sobre Eva

Tradutora, revisora, escritora e sonhadora. Anarcafeminista em constante estado de amor e horror com o mundo. Editora no Livro dos Espelhos.

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