Drive Thru RPG

Mulheres e o RPG

31/01/2012

É comum eu ouvir de meninas que não jogam com personagens femininos em mesa de RPG por medo. Medo de levarem cantada, medo da personagem ser assediada, medo de ter que ter carisma/aparência altos ou a personagem é completamente zoada, medo de não ser levada a sério. É triste pensar que em um jogo onde você pode ser qualquer coisa, o medo e a dominação masculina imperem de uma forma opressiva a tal ponto que o gênero deve ser negado – ou pior, vira motivo de chacota nas mãos de muitos jogadores masculinos, que decidem interpretar uma personagem mulher ‘for the lulz’. Quantas vezes não vimos os ideais de armadura feminina serem reduzidos a tanguinhas, pulando da fantasy art direto para as mãos sedentas de rpgistas? Cópias da Red Sonja, sendo usadas pura e simplesmente como desculpa para o coito desenfreado com todo e qualquer NPC à vista?

A pergunta é: será que já não passou da hora de revermos alguns conceitos? Mesas maduras existem, sim, mas são difíceis de conseguir. Mesas onde o sexismo não impere.

Quantos de vocês já esgotaram a fórmula de ‘princesa em perigo, rei paga tesouro para aventureiros resgatarem’ em jogos medievais? E a vampira peituda e gostosa que faz sexo com todo e qualquer PC que se aproxime, sem motivo aparente? Quantas NPCs (e PCs) realmente fortes e motivadas por algo você já viu em suas crônicas?

É difícil ser mulher e jogadora de RPG. É difícil ter de ouvir que se está numa mesa apenas para conseguir namorado, ou para aparecer para os amigos. É difícil de acreditar,eu sei, mas mulher realmente joga RPG por que curte. Mesmo. Mas se torna difícil participar de um grupo onde as personagens do Mestre são completamente estereotipadas, ou os outros jogadores simplesmente não respeitam os outros – não por uma questão interpretativa, mas puramente por grosseria e machismo deslavado. Será que não é hora de parar para refletir acerca de como nos comportamos e pensamos, num grupo de – muitas vezes – amigos? Do por que é incomum em alguns lugares encontrar jogadoras de RPG? Ou mesmo por que se torna difícil atrair novas jogadoras? Não é uma questão de jogos diferentes, mais interpretativos, softcore. Não é uma questão de deixar o hack’n’slash de lado, ou deixar de falar palavrão à mesa. É questão de parar pra ver se as suas atitudes, seja como Mestre, seja como jogador, priorizam um sexo em detrimento do outro, ou são degradantes de alguma forma. Talvez uma ideia/solução fosse desafiar os jogadores a criar uma mesa apenas de personagens femininas, e sentirem na pele os desafios do tratamento diferente. Ou, perguntar e sugerir ao Mestre o porquê de não mudar as coisas, e levar a princesa a resgatar seu noivo que foi sequestrado por um
dragão, permitir à uma mulher ser a Arquimestre foda, a líder de uma alcatéia de Garou…enfim, permitir à mulher também ser detentora do poder, e ser forte.

Esse é um desabafo de uma mulher, jogadora de RPG desde os 9 anos de idade, e que sente na pele as diferenças impostas aos gêneros, exacerbadas em muitos jogos. Eu tenho uma voz. Uma mensagem, e espero que ela seja ouvida.

Autor: Emi

Sobre Colaboração

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