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Id, Ego, Superego e a Morte dos Sonhos em Changeling

25/11/2012

Boa noite! Hoje, resolvi escrever um artigo curto, mas que acredito ser crucial para quem joga ou se interessa por Changeling: O Sonhar. É comum acontecer um erro de interpretação entre as Cortes Seelie e Unseelie, ao mesmo tempo em que muita gente tem preconceito com o jogo por considerar “colorido demais”, beirando a homofobia totalmente ridícula e argumentos infantis. Falo da minha experiência, tanto enquanto Narradora quanto como jogadora, uma vez que há muitos anos eu já cometi este tipo de erro – não os erros homofóbicos, mas os erros de interpretação entre as Cortes Seelie e Unseelie. Não pretendo escrever nenhum mega tratado sério – são apenas alguns pensamentos meus sobre esse cenário de RPG, e que eu gostaria de compartilhar com vocês para, quem sabe, podermos discutir.

Ok, vamos lá. Nos dicionários, a palavra “seelie” costuma constar como “fadas benevolentes”, “de luz”, enquanto “unseelie” significa “falas malevolentes”, “sem luz”. Mas devemos nos lembrar que estamos falando do Mundo das Trevas. Se este cenário punk-gótico admite diversos tons entre o preto e o branco, suas fadas, enquanto representações dos sonhos e pesadelos dos habitantes desse mundo, permitem muito mais do uma simplificação tola como “de luz” e “sem luz”. Lembrem-se de que não é um mundo preto e branco, e quando estamos falando de Changeling, ele vai muito além de diversas variações de cinza ou de sépia – e mesmo muito além de qualquer cor que possa ser definida em palavras, e de todas as suas variações jamais sonhadas.

Enquanto arquétipos psicanalíticos (uau, to profunda hoje, me deixa u.u), podemos relacionar a Corte Unseelie com o id, que é a fonte da energia psíquica, formada por pulsões – instintos, impulsos e desejos inconscientes. São as fadas que representam a parte mais instintiva de cada um dos nossos sonhos, os mais loucos, os mais selvagens, totalmente voltados para a satisfação imediata dos prazeres. Agora, me digam: que ser humano não possui fantasias inconfessas, selvagens, egoísticas? Quem não imagina situações loucas, nem que seja por um lapso, aquele impulso primitivo que nos leva a sonhar e imaginar as coisas mais… absurdas?

A contraparte seria a Corte Seelie, que eu acredito que possa ser relacionada, psicanaliticamente, com o conceito de superego. É aquela parte moral, que representa os valores sociais e que se divide entre o bem (subjetivo) a ser procurado (chamado de ego ideal) e mal a ser evitado (chamado de consciência moral). Ele inibe, através de punições ou sentimento de culpa, qualquer impulso contrário às regras e ideias que ele próprio dita, força o ego (ou seja, o eu) a se comportar de maneira moral e busca conduzir o indivíduo à perfeição. Porém, o excesso de proibições do Superego pode gerar a frustração do indivíduo, a um pensamento maniqueísta, que só funciona em termos de certo e errado, bom e mau.

Quando ampliamos estas coisas para os Legados, o equilíbrio entre os Legados Seelie e Unseelie resultariam na mediação e no equilíbrio do Ego, que harmoniza os impulsos do id e as exigências do superego com a realidade – fazendo com que as pulsões mais loucas possam ser contidas até o momento em que possam ser realizadas com o máximo de prazer e o mínimo de consequências, ao mesmo tempo em que harmoniza as necessidades do id e as exigências do superego. É nesse jogo de luz e sombra, em seu equilíbrio, que se dá um indivíduo equilibrado, não é?

Mas, como tudo no Mundo das Trevas, não há mais equilíbrio, o que havia foi perdido. No momento, a Corte Seelie, com seu excesso de regras e proibições, dá as cartas. Os impulsos primitivos – que são também os princípios da mais pura mudança – estão contidos, assim como a Corte Unseelie perdeu seu direito de reinar por metade do ano, em um mundo em que os sonhos estão morrendo, e o fim, simbolizado pelo Inverno, pode chegar a qualquer momento. Não o inverno necessário, para que tudo morra e possa renascer, mas o Inverno Final, onde não haverá uma nova primavera que traga uma nova esperança.

O que você faria se todos os seus sonhos estivessem morrendo? Se você soubesse que, a qualquer momento, nada mais faria sentido, não haveria mais imaginação, coisas novas, esperanças, simplesmente porque todos perderam a capacidade de sonhar? Agora, qual Corte é boa e qual é má? É realmente Changeling um jogo “raso” e “fofo” demais, ou somos nós que não estamos preparados, muitas vezes, pra lidar com certos aspectos dos nossos próprios desejos?

Autora: Eva

Sobre Eva

Tradutora, revisora, escritora e sonhadora. Anarcafeminista em constante estado de amor e horror com o mundo. Editora no Livro dos Espelhos.

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