Drive Thru RPG

Diablerie (e Porque Nós Jogamos RPG no Mundo das Trevas)

28/11/2012

Hoje eu achei que seria bacana a gente papear um pouco sobre a diablerie em Vampiro: A Máscara, e ai avançar pra uma discussão do motivo da gente pirar tanto no Mundo das Trevas e seguir jogando esse cenário que completou 20 anos. Vou dar uma explicação básica, pra quem está chegando agora nesse cenário maravilhoso de RPG, e também pra introduzir a discussão, okay?

O Que é a Diablerie?

A diablerie, também conhecida como Amaranto, é considerada um crime inominável pela Camarilla – seria o equivalente vampírico ao canibalismo entre os mortais. Sabe-se que o Sabá e os Assamitas (cada um por motivos próprios) praticam deliberadamente tal ato grotesco, o que aumenta a preocupação dos anciões. Resumindo, a diablerie ocorre quando o vampiro se alimenta de outro vampiro, igual faz com pessoas. Porém, quando o sangue do vampiro acaba (e vampiros de geração realmente baixa podem ter MUITOS Pontos de Sangue), ele continua a beber. Não é difícil – para vampiros, o sangue de seus iguais é muito mais forte, mais doce, mais embriagante, mais viscoso mas gostoso. Porém, o sangue acaba… e o diablerista continua sugando.

O que há, dentro da casca morta-viva dos Membros, quando todo o sangue se vai? Só fica a alma. É ai que o vampiro atacante começa a diablerie, porque ele entra em uma disputa de vontades para devorar a alma do outro vampiro. O esforço para arrancar a alma de outro vampiro é fenomenal, pois a alma se agarra à casca em que habitava. Enquanto pratica a diablerie, o atacante fica indefeso, concentrado na luta para devorar a alma do outro. Cenário nada bonito, não é?

Okay, Isso é Nojento. Por Que Vampiros Praticam o Amaranto?

A primeira sensação do diablerista bem sucedido é uma euforia tão intensa, que pode levá-lo a um frenesi. É uma sensação orgásmica sobrenatural tão, mas tão intensa, que vicia – o que torna os praticantes da diablerie uma ameaça. Afinal, para satisfazer o vício, qualquer vampiro serve, independente de sua geração.

Acontece que, se a geração da vítima era menor que a do praticamente da diablerie, o diablerista rouba, junto com o sangue e a alma, a própria potência do sangue do vampiro devorado, o que reduz em um degrau (ou mais, a critério do Narrador!) a geração do criminoso e o deixa mais próximo dos próprios Antediluvianos (e até mesmo de Caim, o pai mítico dos vampiros), com todos os seus benefícios – acesso a níveis mais altos de Disciplina, se for o caso, maior reserva de sangue, entre outras coisas espantosas.

Além do benefício permanente, existem os outros temporários, como um aumento de Disciplinas em um nível ou dois das que a vítima possuía,por uma única cena. E isso também é viciante.

Isso Não é Perigoso?

Pra vítima com certeza. Mas para o praticamente, também é. E por mais que o cadáver da vítima se decomponha rapidamente após o crime, as evidências ficam na alma do criminoso na forma de manchas descoloradas na aura, facilmente interpretadas por vampiros mais velhos e hábeis em Auspícios. Os Tremere, através do uso da Linha do Sangue da Taumaturgia, também são capazes de detectar o Amaranto – mesmo séculos depois de sua prática, quando as manchas na aura já sumiram.

O outro perigo maior? Bem… o feitiço virar contra o feiticeiro. Vampiros antigos, de vontade realmente poderosa, podem se apossar do corpo daquele que o diablerizou. A alma do diablerista continua lá dentro, sua mente continua a existir, mas ela é que acaba ficando no banco de carona, enquanto a suposta vítima assume o volante. Quem realmente arriscaria uma coisa assim?

Roleplay versus Jogadores Gananciosos

Uma coisa que não podemos perder de vista quando estamos falando de Vampiro: A Máscara é que se trata de um jogo de horror pessoal. O que o fez revolucionar o RPG é justamente esse aspecto: ele sai do foco no grupo e nos desafios, nos monstros vencidos e nos encontros aleatórios, e passa para o interior do personagem.

Não que a aventura, o trabalho em grupo, a coisa de “não tem vencedores” do RPG não estejam presentes. Claro que estão! Mas o foco desloca da história em si, dos inimigos superados, para como os personagens veem a superação do inimigo, que muitas vezes está, de fato, dentro de cada um deles. É na interpretação da história pelos personagens, e então pelos jogadores, que temos a história contada – não a que de fato aconteceu, mas como o que aconteceu, mesmo que só dentro da cabeça dos personagens, impacta na interpretação da história. É ai em que se dá o ponto onde sai a figura do Dungeon Master, ou do Mestre, e entra a do Storyteller, do Narrador, aquele que vai apenas guiar a história que será contada por todo o grupo.

E é exatamente isso o que me faz cada vez amar mais esse estilo de narrativa, de mesa de RPG. Não é o poder em si que interessa, mas o que aconteceu e como isso afetou o seu personagem.

Porém, sempre temos aqueles jogadores sedentos por poder. Diablerie? Vish, várias vezes! E daí que ele segue a Trilha da Humanidade? Quem se importa? Eu quero mais é upar! (oi?)

É claro que mesas do Sabá, ou mesas com Assamitas, são diferentes – porque o conceito da “classe” é diferente. Sai de cena o horror pessoal, e entra em cena a incorporação/interpretação dos horrores, num jogo com arquétipos impulsivos que, sim, habitam a psique humana em seus aspectos mais… hediondos. É próprio do fantástico essa coisa de incorporar monstros através da arte como uma forma de expurgar nossos demônios internos, então por que com o RPG seria diferente? Porque assim, eu joguei diversas mesas de Sabá, mas nunca tive a ideia maluca de sair por ai aqui na minha cidade promovendo uma Festa da Pá (e se alguém ai realmente pensou em fazer algo do tipo, favor procurar um psiquiatra o.O).

Como vocês lidam com a diablerie com seus personagens que seguem a Trilha da Humanidade? E como vocês lidam com os seus jogadores, meus queridos Narradores, com aqueles que tão pouco se lixando não estão nem ai para o que significa jogar com um personagem que é um monstro, com uma Besta interior, mas que se agarra a uma imagem do que é ser um humano? O que é, de fato, ser humano? Qual a sua reação verdadeira, independente de piadinhas de humor dito negro, sobre casos reais de canibalismo? Então por que um vampiro que se agarra ao que ele lembra ou acha que é ser humano acharia muito normal e bacana se tornar um canibal na busca por mais poder?

Autora: Eva

Sobre Eva

Tradutora, revisora, escritora e sonhadora. Anarcafeminista em constante estado de amor e horror com o mundo. Editora no Livro dos Espelhos.

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