Drive Thru RPG

Conto: Poeira

15/08/2010

” …And these children that you spit on
as they try to change their worlds

are immune to your consultations.

They’re quite aware

of what they’re going through…”

Change – David Bowie

Alice suspirou. E eu me permiti sorrir. O vento que entrava pela janela aberta brincava em suas mechas azuis, enquanto ela sorria para mim.

Tão linda. Tão jovem.

Cada célula do meu corpo grita, mas eu não iria estragar o momento.

Meu anjo azul se movimentou lentamente na cama, ainda de pijama, enquanto colocava seu monitor ótico. Senti que poderia chorar de felicidade, mesmo com os olhos queimando e me segurando para evitar as contrações.

Ela disse que tudo bem. Sorri para ela, um sorriso frio, mas felizmente ela não percebeu.

Eu estava perdendo o controle, então peguei a minha mochila e fui.

Assim que a porta fechou, lavei o rosto e me olhei no espelho, e algo me dizia que aqueles olhos cinzentos e gelados que me encaravam não eram meus. Não poderiam ser.

Procurei a seringa, já preparada, em minhas coisas, rezando para que Cassandra tenha se lembrado de preparar mais. Injetei lentamente, lentamente, como deve ser. Uma onda fria percorreu meu corpo, trazendo com ela o alívio. Eu podia respirar novamente, na medida em que as contrações cessavam.

O que fizeram comigo?

Lá fora, no quarto, as batidas eletrônicas recomeçaram. Alice deveria estar treinando suas viradas, ignorante do que acontecia no banheiro. Melhor assim.

Lavei o rosto mais uma vez, depois cuidadosamente guardei os restos de minha vergonha.

* * *

A contagem regressiva continua. Acendo o cigarro sem pressa, sentado atrás de minha mesa gasta, antiga, na confortável poltrona. Quantos anos mais até que me encontrem?

O gosto do tabaco parece brincar em minha boca, enquanto olho para a janela escura, esperando o próximo cliente.

Droga, não percebem que o sonho fracassou?

Essa realidade já era, ok, sem problemas, podemos trabalhar em uma nova.

Se não fosse todo o controle, todos aqueles malditos pervertidos dos Progenitores, talvez eu voltasse.

Não. Eu sei que não voltaria.

Espero calmamente o próximo lance do adversário, enquanto acompanho um chat inútil de uns farrapos.

Não pude evitar um sorriso. Eles nunca fariam comigo o que os outros foram capazes de fazer.

* * *

Luzes fortes em meus olhos e tudo dói. Está tudo tão frio, mas eu só quero que parem. Que me tirem dali.

O mundo se apaga, e no segundo seguinte, um sorriso de mulher, dando as boas vindas ao fuzileiro CJ-327 e anunciando sua promoção.

Acordo sufocando. Isso precisa parar. Minha pistola está ali, tão perto. Um único tiro, e o frio e as vozes e as dores parariam para sempre.

Mas a lembrança do sorriso de Alice me impede.

Covarde, me encolho em minha cama, rezando para que tudo pare.

Mas nunca vai parar, e eu sei disso.

Resignado, sei que seria muito perdedor ficar assim.

Sem pressa, metodicamente, me preparo, e, em segundos, aquela sensação, uma das melhores sensações do mundo, e o céu digital surge diante de mim, com seus muitos pontos hi-color.

Nem o hiperespaço é tão belo assim.

Respiro fundo, e me sinto vivo, aqui, onde eu posso sentir.

De longe, além do conduit, avisto meu anjo de marfim azul acenando, com um belo sorriso.

Flutuamos juntos até o Legado, embora eu não entenda o que ela veja demais nesse lugar estúpido. Três Homens de Preto observam a nossa chegada com aquela frieza irritante. Aquela frieza que também é minha.

Um arrepio percorre a minha espinha digital, mas mantenho a minha frieza, e devolvo o olhar, tornando a frieza em zombaria.

Calmamente, me dirijo com ela a uma das salas reservadas, para ouvir seus planos de ação.

Não posso deixar de sorrir. São planos ousados.

Por isso somos a Elite. A única esperança de Ascensão estão nesses planos e nessa rebeldia. Sei que posso me levantar novamente no dia seguinte.

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O conto é muito simples. Só postei para que os jogadores que são iniciantes tenham uma noção melhor de um dos processos de “contação” de história de Mago, e para que, talvez, possam compreender melhor como são formados os conflitos internos dos personagens. Esse é só um dos muitos exemplos.

Trata-se de um conto sobre o Adepto da Virtualidade Capitão Trevor. Capturado dos Oradores dos Sonhos koryak pouco tempo depois de Despertar, foi incorporado aos Engenheiros do Vácuo. Depois de uma campanha, uma cabala o capturou e ele acabou se junto aos Adeptos.

Autor: Eva

Sobre Eva

Tradutora, revisora, escritora e sonhadora. Anarcafeminista em constante estado de amor e horror com o mundo. Editora no Livro dos Espelhos.

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