Drive Thru RPG

Conto: Mosaico

26/02/2012

“Acho que o que lhe está faltando é um pouco de prática. Quando eu tinha sua idade, eu treinava pelo menos meia-hora por dia. Logo depois do café da manhã, fazia o possível para imaginar cinco ou seis coisas inacreditáveis que poderiam cruzar meu caminho, e hoje vejo que a maior parte das coisas que imaginei se tornaram realidade. “
– Alice no país das Maravilhas, Lewis Carroll

O real é aquilo que pode ser tangenciando pelos meus cinco sentidos e minha imaginação é baseada no empirismo das mesmas: Max era um homem materialista. Não no conceito ordinário da palavra, mas era um homem táctil, tangente, padrão. Ele enxergava assim sua realidade, assim ele acreditava estar certo ou acertadamente próximo da verdade. Ele tinha uma vida desconfortável, desassossegada: Por mais que pensasse e vivesse o que acreditava, havia algo mais ou – a mais – que o incomodava. Algo que transcendia sua cognição e por isso, ele detestava. Ele não queria adivinhações ou uma inexatidão. Ele queira o táctil. Sempre quis. No meio dessa vida desconfortável, que apesar de casa, amigos, faculdade e cigarros, havia sempre um quê de incognoscibilidade, ele caminhava rumo aos seus dias inexoravelmente.

Agora, o engraçado dessa inexorabilidade é que ela não é inexorável. Houve um evento que desencadeou uma experiência fora do táctil em Max e isso tudo foi culpa de Selim, uma criatura advinda da pós-modernidade unicamente para mostrar a Max que os caminhos mais retos, são entortados no horizonte distante.

Numa feita destas, o cidadão estava em sua casa, fumando seus cigarros. Foi quando, nessa epifania de fumaça, ele percebeu que o mundo não passava de uma enorme pedra. E que as palavras eram sólidas e machucavam como britas. E que a fumaça tinha um peso, uma medida. Tudo que ele havia estudado na física e na química, saltaram aos seus olhos de maneira… que maneira? Como, seu um equipamento adequado, ele sabia daquelas coisas precisamente? Max terminou seu cigarro silenciosamente e foi a faculdade. Era sábado, nem havia aula. Mas ele foi a biblioteca para pesquisar. Ele buscava algo que respondesse suas perguntas de maneira definitiva. E foi quando encontrou um ser destoante na biblioteca. A sensação que tinha era que aquela pessoa simplesmente podia pegar as coisas no ar. Por sinal… ele havia percebido COISAS NO AR. Ele começou a ver palavras saindo da cabeça dela e esvacendo-se conforme ia sendo substituída por outras. Ela lia e ele sabia o ela estava lendo. Ele ficou nisso por uns cinco minutos, até que o esperado aconteceu: Ela percebeu. A pessoa virou-se na direção de Max com uma cara de pouco carisma e ergueu uma das sobrancelhas. Então, ele viu sair da cabeça dela: Vou arrebentar a sua cara, seu filho de uma puta invasor de privacidade… E as palavras eram rubras. Aquilo significava perigo. Só podia. Max virou o rosto e logrou ir em direção à porta. A pessoa alcançou e disse: Dá uma licença? Ele virou-se e viu uma garota de moicano verde, piercing na parte inferior da boca e olhos pretos. “A gente pode ter uma conversinha, brother?”. Max ficou sem reação. Eles saíram da biblioteca e foram rumo ao teatro da faculdade, onde tava tendo um ensaio lá, e não havia quase ninguém além dos atores. Sentaram-se nos fundos e a conversa durou 4 minutos e 23 segundos: “Vou te jogar a real, fera. Ler a mente alheia é falta de respeito, e te coloca no mesmo nível dos filhos das putas. Sacas?” “Err. Eu…? Fiz o que?” “Ah, tu é um puto que levantou da cama agora, né?” “Eu acho que sim, não sei.” “É sim. Olha, dá pra perdoar essa vez. Mas, tu vai ter que buscar ajuda. Tem uns caras que podem te ajudar a usar isso aí direito. Rapidamente falando: Não conte isso a ninguém, se não tu vai receber uma lavagem da Tecnocracia no teu cérebro. Sacas? Tu vai virar pastel. Outra coisa. Isso dá um problema se for feito de maneira escandalosa, sacas?” “Escandalosa?” “Ah, sim. Tu podes fazer mágika agora. Tu despertou tua centelha extemporânea e imaterial. Antes tu alterava a realidade de maneira cíclica. Agora, tu pode fazer qualquer coisa geométrica e abstrata. E inventar as próprias formas. Tá ligado não? Ou tu acha que ver palavrinhas saindo da cabeça alheia é “normal”?” “…” “Pois é, fera. Agora é que o bagulho fica tenso. Vou mandar os caras legais falarem contigo. Bem, preciso ir. Daqui a 10 minutos passa o meu busão e é exatamente o tempo que eu levo pra chegar na parada.” “Como você sabe?” “Mágika, fera. Mágika. Falou. Segura o rojão.” E assim saio da frente de Max uma das criaturas mais estranhas que ele veria. E ele ficou observando por um tempo o ensaio e pensando nisso: Em formas geométricas nunca vistas antes. Talvez fosse impossível. Mas, ele também percebeu que a sensação de incômodo havia sumido: O impossível existia e era algo que ele agora podia tocar. E se ele podia tocar, bem, então não tinha como não ser real. Agora Max queria: O impossível.

Autor: Thaynah Leal Simas
Revisão: Eva

Sobre Colaboração

Artigos publicados por leitores ou ex-autores do blog, que gentilmente colaboraram conosco ao longo dos anos. Artigos de opinião não necessariamente expressam a opinião das autoras do blog; traduções e resenhas têm suas informações checadas.

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