Drive Thru RPG

Conto: Mamãe,

15/08/2010

Cyber-PunkSeu nome ainda é melodioso aos meus ouvidos. Mas tal qual seu nome, minha vida tinha que ser algo à maldita moda de James Joyce? Lembro dos seus cabelos entre os meus dedos, e dos seus olhos verdes. E então me encolho, pois sei que é tudo o que vou ter de você.

Recentemente, consegui uma antiga foto do seu histórico escolar. E isso é tudo. Game over.

O dia está cinzento, mas não é como em Dublin. Talvez aqui, tão longe, falando essa língua exótica, eu possa recomeçar.

Ainda me lembro, mamãe, de quando você adoeceu. Da sua briga com o Colin, e de como ele estava chapado naquele dia.

Lembro de como você tossia, e daquele miado insistente.

Depois você se foi, mamãe, e Colin era tudo o que eu tinha.

Queria não lembrar, mas eu me lembro de quando os amigos do Colin começaram a tomar pico na nossa antiga casa. De como eu sentia fome, e de como ele me olhava desesperado, e me pedia desculpas depois por deixar que eu usasse essas coisas.

Lembro do dia em que aquele homem, para quem o Colin trabalhava, veio cobrar a dívida. E de como o gato me ajudou a entrar dentro da lareira há muito apagada. E de como o homem o estripou e bebeu o sangue do Colin.

E de como eu implorei em silêncio por Santa Brígida, mamãe, e de como ela não me ajudou. E lembro que foi naquele momento que tive a certeza de que sua santa de devoção não queria me ouvir, e descobri que não havia um Deus justo e um Cristo que protegia os sofredores. Eu não era má, mamãe. Fui uma boa garota. Eu não fugi do colégio nem das missas, não antes daquele dia. Continuei a visitar o seu túmulo, pois você foi a única que se importou comigo.

Lembro de quando os homens vieram e não me acharam. E de como aquele sorriso me levou para fora, de noite, e eu ganhei as ruas. E ele sussurrou nos meus ouvidos, e eu dei ouvidos, para que os miados parassem. E de como ele me ensinou a sobreviver em sonhos. Eu só tinha os sonhos, mamãe, e era bonito. Agora não tenho mais nem isso. Até que eu bati a carteira daquele moço muito distraído. E depois foi atrás de mim, e me estendeu a mão. Eu fugi dele, achando que ele tinha me farejado, como todos aqueles nojentos dos amigos do Colin, que se esfregavam em mim e diziam coisas horríveis.

No outro dia, ele estava lá. Eu não sei porque, mas aceitei ir ao hotel com ele. Eu estava louca, mas precisava de mais, mamãe. Não queria ter mentido para a senhora, mas foi por isso que eu fui. A heroína me fazia invencível, e eu podia ser quem eu quisesse. E aquele miado parava um pouco. Estava tão louca que teria dado pra ele o que a senhora me ensinou a guardar para quem eu amasse, para um dia, quando eu me casasse. Tudo em troca de dinheiro. Mas ele não quis isso, mamãe, e eu chorei muito. Porque foi a primeira pessoa boa que conheci desde que a senhora teve que partir.

E eu contei pra ele que sonhava em ser DJ, porque eu vi uma moça tocando uma vez na TV, e poxa, ela parecia ser tão feliz! E ele me disse que se chamava Andrew, e estava na cidade por acaso. Ele era só um pouco mais velho que eu, e me ensinou a ler direito, porque a senhora sabe como é… eu não conseguia me concentrar direito no colégio, mas eu sei que senhora me desculpa por isso. E depois vieram os computadores, e todas aquelas coisas tão legais! Acho que eu voltei a sonhar que poderia haver futuro pra mim.

Mas ai aqueles homens vieram, o Colin devia pra eles, e eles queriam alguma coisa de mim. O Andrew ficou preocupado, disse que era coisa com vampiros e que era melhor a gente sair de Dublin. Achei que ele tava ficando maluco. Vampiros, mamãe! Mas ai lembrei do que o homem fez com o Colin. E naquela manhã foi a última vez que visitei o seu túmulo, mãe, antes de deixar a Irlanda para sempre.

Mas então os outros homens nos encontraram em Buenos Aires, em muitos carros pretos, e o Andrew me mandou correr. Mas eu vi quando atiraram na nuca dele. Eu o amava. E só depois que ele se foi descobri que ele era um Adepto. M1r4cL3. É, ele foi tudo isso e muito mais para mim. O único milagre da minha vida.

E então… não sei o que houve. Eu tinha que correr, aquele miado estava me deixando maluca… e eu… não sei. Eu estava em São Paulo, e alguma coisa tinha acontecido. Eu entrei pelo Espelho, mamãe.

A senhora pode ver o que eu me tornei? Eu sou Desperta, mamãe. E tenho amigos agora.

Acho que ouvi os sinos do destino tocando descompassadamente quando conheci o André. Ele que me encontrou, e me levou para a casa dele. Eu tive medo das coisas que ele me falava, e não confiava nele. Como eu fui estúpida, mãe. Depois da senhora, ele foi o único que me tratou como filha.

E eu fui para a casa do Trevor. Ele era tão doce, tão bom, mas eu descontei tudo nele. Não tinha esse direito. Mas ele me mostrou. No fim, isso não importa.

O que importa é que tudo isso é um sinal muito claro de que essa Realidade acabou, mamãe. Mas a nova vai ser linda, perfeita, e eu vou ajudar a construí-la.

Gostaria de poder ainda usar o nome que a senhora me deu, mas não posso mais. Para não me esquecer nunca da senhora, mamãe, saiba que meu novo nome começa com a cor que a senhora mais amava. E que, um dia, eu espero que ele faça sentido, porque eu quero sonhos tornados em realidade.

E eu gostaria que a senhora pudesse ver a Realidade que estamos construindo. E talvez o Colin também, mamãe, porque eu gostava muito dele. Lembro de quando a gente era muito pequeno e a senhora levava a gente pra brincar no parque, e de quando ele me ensinou a soltar pipas.

Eu não quero mais ser DJ, mamãe. Não quero ser mais nada. Só quero que a nova Realidade venha logo, porque eu sofri muito nessa. Hoje em dia eu não consigo mais chorar.

Essa será a minha última prece, mamãe, e espero que a senhora a ouça. Porque eu não tenho mais nada, mamãe, além da lembrança dos seus olhos, dos seus cabelos entre os meus dedos, e o som do seu riso. Não se preocupe, mamãe, que eu não estou mais sozinha. O Gato me faz companhia quase todo o tempo agora, e eu sempre tenho meus amigos online. Vou continuar tentando ser boa, mamãe, como a senhora queria, porque eu espero que um dia ainda a senhora possa me ver, e talvez se orgulhar de mim.

Acho que o amor que a senhora sentia era grande o bastante para nós duas, mamãe, e é o único de que não duvido.

Nunca mais vou pedir nada, tá? E assim que eu puder, levo margaridas pra senhora.

Quando te visitava, às vezes achava que ouvia o seu riso no vento que sempre sopra naquele cemitério.

Com amor,
Alice.

P.S.: Se os fantasmas existirem de verdade e a senhora estiver por ai, pode vir me visitar? Juro que sou muito corajosa.

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Um exemplo de background de personagem. No caso, é o background de uma personagem minha, a Blu3Dr34M, dos Adeptos da Virtualidade (sou apaixonada pelos Adeptos, quem joga comigo já sabe, embora eu esteja interessada, no momento, na Casa Thig da Ordem de Hermes. Sim, sou doente por tecnomágika).

Um background pode assumir qualquer formato de texto, qualquer molde, mesmo. Não é tão difícil criar um, ok?

Autor: Eva

Sobre Eva

Tradutora, revisora, escritora e sonhadora. Anarcafeminista em constante estado de amor e horror com o mundo. Editora no Livro dos Espelhos.

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