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Conto: Cartas Sobre Sexismo e Despertar

09/01/2012

Cara Dra. Sandra Stone,

Agradeço por pedir minha opinião sobre sexismo e machismo em um campo tão delicado. Creio que possa não responder suas dúvidas, mas levantar algumas questões. Tecerei, portanto, apenas alguns comentários.

Ainda assim, não posso não me interessar por suas questões. E para que possa iniciar o debate, partirei de uma palavra corriqueira, usada a cada vez que nos damos a conhecer entre os nossos – bani. Do hebraico, significa “edificar”, ou o edifício construído em si. Assim, a senhora é “bani Eterica”, “da Casa Edificada do Éter”.

Ouvi recentemente de uma garota de sua Tradição que ela não se importa com a questão da mudança do nome para “Descendentes do Éter”, uma vez que, em português, não se tem o mesmo peso que no inglês, por exemplo. Que, enquanto em inglês tem-se “Son” e, em oposição, “Daughter”, no português temos “Filho” e “Filha”, onde, teoricamente, temos apenas uma alteração desinencial de gênero. Fico espantada com tal ignorância dentro das línguas latinas. No caso, o sexismo apresenta-se não na morfologia da palavra, mas em seu uso calcificado pelo costume patriarcal.

Comecemos do início. O que é um filho, na acepção histórica do termo? O filho apenas deixa de ser “filho” para se tornar “marido”, quando constitui a própria família. De qualquer forma, temos, no filho, sujeito masculino, o embrião do futuro senhor e herdeiro de seu pai, aquele que levará o nome do pai adiante e deixará descendência, que dará seu nome de família à esposa e ao filho. Em momento algum, o homem deixa de se constituir enquanto sujeito, com seu gênero como fator determinante para que tenha certos privilégios tradicionalmente constituídos.

E o que é uma filha? Primeiro, enquanto filha, ela é propriedade do pai. Sei que pode parecer forte o uso da palavra, mas vejamos. A mão dela é pedida ao pai, tradicionalmente, em casamento. Ela é conduzida ao altar pelo braço do pai, que a dá em casamento a outro homem. Então, primeiro, temos a mão como símbolo de um objeto que deve ser pedido (a mão, uma única parte, é tomada pelo todo, a mulher não tem nem mesmo direito a ser um ser inteiro, mas sim uma única parte dele), e não como um ser capaz de tomar suas próprias decisões. A seguir, temos o pai conduzindo a filha para o altar. Não como alguém que segue adiante, rumo às próprias decisões, mas como um ser que precisa ser guiado pela mão e dado a outro ser, que dela passará a tomar conta. Temos a infantilização da mulher e sua objetificação, uma vez que ela é tratada como criança, incapaz de tomar suas próprias decisões, e por ser dada, como se fosse um objeto sem vontade própria.

Uma vez casada, a mulher abandonará o próprio nome (ainda que seja aquele que lhe foi dado pelo pai) e adotará o nome do marido. Assim como a propriedade, que passa a ser a Propriedade do Sr. Marido.

Outro ponto é que mulheres só se tornam senhoras do lar. Explicando-me, enquanto homens, uma vez que se façam adultos, são sempre tratados por “senhores”, mulheres solteiras são “senhoritas”. A palavra senhorita origina-se de “senhor+ita”; -ita é um sufixo que indica a origem de algo. Portanto, uma senhorita é “originada de um senhor”. Onde estava a mãe, uma senhora, que lhe deu à luz? Não está lá. Não importa, porque a mulher solteira é propriedade do pai, que pode dispor, mais uma vez, tradicionalmente, de seu futuro, como bem entender. Enquanto o homem é sempre senhor – ele não se origina de nada, e pode-se, aqui, apelar ao mito d’aquele que se fez por si mesmo, que surgiu do chão, filho da terra e da pátria (pater, pai) e cresceu porque foi semeado em solo fértil. Ora, se a mãe é tratada apenas como solo fértil, apenas para que dela nasça futuros herdeiros para o homem, já temos ai o valor da mulher casada. Além, é claro, da mulher adotar o nome do marido. Portanto, a mulher só passa a ser senhora de algo quando se torna propriedade do marido, e é só através de ser possuída que passa a desfrutar de algum direito de ser senhora de algo.

Creio, portanto, que o uso do termo bani, para indicar a Tradição do interlocutor, é uma escolha acertada. Elimina certos conceitos sexistas, e devolve à mulher sua plena capacidade de ser, por si, uma construtora do universo, independente de seu gênero. E palavras, senhora, elas têm muito poder.

Atenciosamente,
Melinda Luz, Hermes bani Shaea

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Sra. Melinda Luz,

Agradeço sua resposta. Levantou muitas questões em minha mente, e seria muito grata se pudéssemos levar adiante nossas correspondências.

E, para que não pense, por esta curta carta, que não levei em profunda consideração o que me disse, basta que saiba que usarei meu nome de solteira, uma vez que ele é meu (ainda que o tenha recebido do meu pai), e não o do meu marido. Sou senhora de mim, e por mim mesma, independente e apesar de qualquer sentimento fraterno ou amoroso que tenha por meu esposo, meu companheiro, meu igual.

Preciso refletir um pouco mais, digerir certos conceitos que me foram apresentados. Nunca havia pensado as palavras desta forma. Hebraico é uma língua difícil de ser aprendida?

Atenciamente,
Profa. Dra. Sandra Stevens bani Eterica

Autora: Eva

Sobre Eva

Escritora, tradutora e revisora, bruxa feminista, maga da Dragão Brasil, Oráculo do Livro dos Espelhos e editora da Aster Editora.

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