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Como Montar Paradigma e História para o Meu Mago? – Parte 2

17/12/2012

Olá! Decidi retomar o artigo sobre qual é o meu processo de criação de personagens de Mago: A Ascensão, por achar que pode ser bem útil para quem ainda se perde no meio dessa história de mágika (ou mágica), Avatar, Arete, paradigma…

A primeira parte do artigo você pode conferir aqui ^_~

Resumindo alguns dos itens necessários da checklist do primeiro artigo, temos:

  • Local e ano onde se passa a campanha inicial em que seu personagem será inserido
  • Descrição da família, da forma de criação, dos amigos, amores, desamores do seu personagem antes que a história tivesse início
  • Descrição de pequenos ou grandes acontecimentos estranhos e marcantes
  • Descrição de exatamente como, quando e onde se deu o Despertar

Certo, tendo esses quatro itens em mente, vamos para o próximo passo:

Voltando ao Despertar

Este com certeza é o acontecimento mais marcante na vida de um mago. Todas as outras coisas acontecerão a partir daqui, e é um divisor de águas na história do seu personagem. Dedique um tempo, carinho e atenção especiais para essa parte da história dele.

Ao estabelecer a história de como foi o seu Despertar, leve algumas coisas em consideração:

O nível de Arete inicial do personagem tem relação direta com a forma que se deu o Despertar

1 ponto de Arete se refletiria em uma tomada gradual de consciência, possivelmente orientada por um mago ou mentor mais experiente, enquanto 3 pontos de Arete, o máximo permitido pelas regras para personagens iniciais, se refletiria em um Despertar violento, onde grandes coisas acontecem enquanto seu mago se utiliza da mágika de forma inconsciente, em uma situação provavelmente de matar ou morrer. Como foi para você? Às vezes, a ficha do personagem influencia muito na forma como você vai escrever a história dele, e vice-versa.

Para regras e outras informações, confira um dos módulos básicos ou os nossos artigos sobre o processo de criação de personagens em Mago.

Qual é a sua Essência?

A Essência de um personagem tem uma relação super direta com certos acontecimentos no seu Despertar. Um mago de Avatar de Essência Dinâmica teria um Despertar relacionado a símbolos de mudanças e descobertas súbitas; de Essência Primordial, à destruição daquilo que não serve mais para a volta a um início onde as coisas eram mais… puras, ou à descoberta/redescoberta de segredos, fatos e acontecimentos antigos; de Essência Padrão à ordem, à estruturação, organização que permitem o estabelecimento de bases sólidas para que tudo se estabeleça e se desenvolva; de Essência Investigativa a um caminho equilibrado entre o antigo, o novo e a ordem estabelecida.

Note que todas essas coisas são muito simbólicas, e podem se traduzir em uma infinidade de acontecimentos. Magos são seres extremamente ligados ao dinamismo, mesmo o mais Padrão deles, e eu sei que às vezes o conceito é difícil de entender, mas vou tentar simplificar: mesmo o mais Padrão e estático dos Despertos é mais maleável, mais criativo e tem mais jogo de cintura do que qualquer Adormecido (ao menos do que Adormecidos que não estão fadados ao Despertar, ou são iluminados de alguma forma). O Dinamismo, aqui, se reflete na criatividade, na busca de algo superior, seja fé ou razão, mas de algo que vá além de sua vida cotidiana, além do comum e banal. Mantenha isso em mente.

Qual é a sua Natureza? E o seu Comportamento?

Isso é básico, né gente? Acontece que, para magos, essa coisa do paradigma é uma interação entre sua Natureza, que é aquilo que você é de verdade, sua Essência, que é como se fosse a natureza do seu Avatar (e portanto também a sua) e suas experiências vividas até então. Seu Comportamento importa? Claro! É principalmente ele que vai ditar como você expressa suas crenças, valores e visão de mundo (paradigma outra vez) para os outros personagens, e muitas vezes para si mesmo e seu Avatar.

Onde o seu personagem estava quando Despertou?

Voltando ao tempo e espaço onde seu personagem está inserido, é importante estabelecer essas coisas para saber como estava o ambiente ao redor de quando seu personagem Despertou, por uma questão simples: possivelmente, no cenário do seu Narrador, a influência da Tecnocracia, do Conselho ou mesmo de Ofícios variam de lugar para lugar, então pessoas possíveis de aparecer antes, durante ou depois, para tentar ajudar ou atrapalhar, certamente se relaciona com o lugar e a época em que isso acontece.

Fora que sociedades lidam diferentemente com algumas coisas: na minha visão, uma pessoa que comece a dizer que esta realidade é uma mentira e que existem verdades maiores, mas que esteja inserida em uma comunidade mais dada a crenças exotéricas ou religiosas ou, ainda, em cidades menores, tem mais chances de ser tratada como algum tipo de iluminado e até mesmo de começar sua própria seita, culto ou sociedade de estudos exotéricos ou parapsicológicos do que alguém em uma grande cidade ou uma das capitais do país (a menos que seja da periferia). Em grandes cidades, é mais provável que te levem ao psicólogo ou psiquiatra, o que talvez te coloque em contato com psicólogos da NOM… nunca se sabe.

Você Já Escreveu Tudo o Que Podia Sobre o Despertar. E Agora?

O que eu vou escolher aqui é baseado principalmente na ideia de que você está criando um mago Tradicionalista (e quem me conhece sabe que minhas tentativas de jogar com a Tecnocracia resultaram em um Engenheiro do Vácuo que acabou fugindo e se juntando aos Adeptos, mas isso é outra história), mas eu tenho certeza de que se encaixa em qualquer facção de Despertos que você quiser, com algumas adaptações.

Esta minha certeza vem do simples fato de que o que estou explicando pra vocês é um conceito que eu adaptei, mas é conhecido nos estudos de literatura para a construção de personagens na literatura canônica ocidental, que leva tanto em consideração o aspecto social quanto o psicológico. Com pequenas adaptações, você pode usar esse processo de criação aqui pra qualquer tipo de personagem, mas em breve eu mesma pretendo apresentar pequenas variações, que eu uso para fazer meus vampiros e meus changelings, levando em consideração as particularidades de cada cenário.

Voltando ao tópico, você precisa ter em mente, desde o princípio, a Tradição com que pretende jogar. O motivo disso é simples: mais do que prática mágika, uma Tradição reúne membros por afinidades filosóficas. Independente da prática em si, algumas crenças são um tanto quanto padronizadas, algumas visões de mundo, paradigmáticas, são compartilhadas pelas Tradições. Embora suas inúmeras interpretações possíveis gerem sim discórdia interna, bem como o orgulho desmedido (a húbris) dos magos e as politicagens internas e externas, Tradições são Tradições porque reúnem pessoas que compartilham algumas crenças em comum. O que é um grupo, mesmo no nosso mundo real, se não um bando de pessoas que acredita e curte coisas parecidas?

Como você pode conferir aqui no FAQ de Mago: A Ascensão 2ª Edição, escrito pelo Phil Brucato (desenvolvedor da 2ª Edição e da Edição de 20 Anos de Mago), filosofia, nos dias de hoje, é mais importante do que tudo. E são essas filosofias internas que vão ditar o que é e o que não é aceitável para os membros do grupo. Você precisa saber quais são as filosofias e valores internos da Tradição com a qual quer jogar, para ter a certeza de fazer um personagem coerente e que, futuramente, vá se encaixar naquela Tradição. Personagens que destoem filosoficamente de uma Tradição podem se ver isolados, ou pior, ter a afiliação negada pela Tradição, caso discorde dos pilares que sustentam aquele grupo como algo perfeitamente delineado.

Você pode, por exemplo, ter um Tecnomante dentro da Ordem de Hermes, mas nunca que este Tecnomante sequer seria aceito se negasse a práxis Hermética. Ele pode pegar os princípios do Corpus Hermeticum e adaptar como achar melhor, mas ele vai continuar seguindo certas crenças que permitem que ele se identifique dentro de uma das Casas.

Da mesma forma, você não vai encontrar um Adepto que não tenha uma visão crítica e anárquica, porque estes são os princípios que moldam a Tradição. Mas presta atenção, que estas coisas servem para o mundo ao redor, mas não para as práticas internas dos Adeptos, uma vez que aqueles que dedicaram um tempo para entender os rebeldes do Conselho sabem que, internamente, eles são tão organizados e possuem uma estrutura tão rígida quanto a própria Ordem de Hermes. Não dá para esquecer que, até recentemente, eles eram uma Convenção, certo?

Esse tipo de conflito interno, do que é possível e o que está totalmente fora do escopo de uma Tradição, só se entende, de fato, lendo os próprios livros da Tradição em questão (ou acompanhando as discussões que rolam aqui no Livro dos Espelhos ou no nosso fórum, onde dá pra debater, aprender e ensinar com mais espaço).

A partir daqui, compreendendo a visão interna da Tradição escolhida, e mesmo a visão da facção dentro da Tradição a que você pretende se afiliar quando for um mago, é que você começa a escrever, de fato, o próprio paradigma do seu personagem enquanto Desperto.

Eu sei que esse artigo ficou maior do que o pretendido inicialmente, mas esta é a última parte dele. No próximo artigo pretendo iniciar uma nova série possivelmente tratando de como escrever o paradigma do personagem em si, enquanto Desperto, dando exemplos de como isso está explicado nos livros de Mago e sobre os modelos que eu costumo usar.

E ai, esses dois artigos te ajudaram de alguma forma? Você usa algum outro processo para amarrar bem amarrado a ficha do seu personagem com a história dele?

Artigo Anterior: Como Montar Paradigma e História para o Meu Mago? – Parte 1 >

Autora: Eva
Imagens: The Final Magic – SilenceV e Casting Magic – darkshadowmagus

Sobre Eva

Tradutora, revisora, escritora e sonhadora. Anarcafeminista em constante estado de amor e horror com o mundo. Editora no Livro dos Espelhos.

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