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Carta Aberta das Mulheres RPGistas : Mulheres e o Machismo no RPG

06/02/2015

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Apesar de estar planejando um texto sobre o que mais gosto de escrever – cenários e sistemas de RPG – me vi obrigada a me juntar com a mulherada do grupo Mulheres RPGistas para que produzíssemos uma resposta às crescentes manifestações de machismo que temos acompanhado no meio do RPG brasileiro, sendo propagados principalmente pela Internet.

Como o texto é longo, segue um resumo para quem não quer ler tudo (embora a leitura valha a pena):

Hoje rolou um Apocalipse machista, após a postagem de um grupo de RPG que exibe o decote de uma moça usando um pingente com um D20, com foco nos seios. Na legenda, lê-se “Quem disse que RPG e mulher não combina?”. Dada tal manifestação e tentativas infrutíferas de problematizar, resolvemos juntar quantas mulheres quiseram participar para que nós mesmas problematizássemos esse tipo de postura nojenta, objetificante e machista, e como sempre, a conclusão foi: passamos por diversas discriminações e violências nos grupos de RPG Brasil afora.

Desde cantadas e tentativas de estupro contra nossas personagens, passando por jogadores desacreditando nossas capacidades de jogar RPG (pois é) até coisas como tentativas de abuso físico contra as jogadoras.

Uma vez que essa é a realidade de muitas mulheres que jogam RPG, e que acaba afastando novas jogadoras, que se assustam com um ambiente tão tóxico para todas as mulheres, em diversas mesas, resolvemos escrever um longo texto expondo nossa resposta para esse tipo de manifestação machista por parte de jogadores homens.

Ao mesmo tempo, mais do que reação, resolvemos partir para a ação.

No dia 8 de março de 2015, Dia Internacional da Mulher, haverá o 1º Encontro de Mulheres RPGistas na Terra Magic, em são Paulo, com debate de, para e entre mulheres, seguido de mesas onde as mulheres vão mestrar RPG. As mesas serão abertas para qualquer pessoa jogar. Em breve daremos mais detalhes sobre as atividades e faremos maior divulgação do evento, que já está confirmado.

Às mulheres que jogam RPG e estão por aqui, fica o convite para que participem do grupo Mulheres RPGistas no Facebook, que é um espaço seguro para todas as mulheres trocarem ideias, experiências, fazerem amigas e, claro, falarem sobre RPG.

E já fica aqui um aviso: mimimi machista, ou tentativas de ganhar cookies (por exemplo dizendo que você nunca viu, ou que seu grupo nunca fez algo machista) não é o foco, e não vai ser tolerado na discussão. Estamos problematizando uma questão objetiva, que viola, que machuca, que nega o direito das mulheres estarem em um espaço pelo fato de serem mulheres. Se você, ou o seu grupo, age de forma decente, bem… ninguém deveria ser parabenizado por agir de forma decente, certo?

Segue o textão, que detalha a nossa posição e a nossa resposta ao atual ambiente RPGístico. Caso mais algum grupo, coletivo ou pessoas queira subscrever nossa resposta, basta me avisar que adicionaremos as assinaturas ao final do texto.

Carta Aberta das Mulheres RPGistas

Mulheres RPGistas – esses seres raros. Tão raros que o encontro aleatório com uma dessas criaturas deveria dar XP. Ou não? Será que as mulheres são mesmo raras no RPG, ou algo acontece, em algum momento, que acaba afastando muitas jogadoras novas das mesas?

Apesar de diversas discussões estarem rolando pela Internet RPGística durante toda a semana, nessa sexta um grupo divulgou a imagem de um pingente feito com um D20. Algo errado nisso? Nada de errado em um pingente, certo? Exceto pelo fato de que a imagem, que foi feita pela própria designer para exibir a peça, foi publicada com a legenda “Quem disse que mulher e RPG não combina?”. Para quem é capaz de fazer contas para fazer uma ficha, será que é muito difícil pensar na associação das duas ideias – uma imagem em que o foco é o decote de uma jogadora, aliada à legenda infeliz que foi escolhida?

Para entender que há uma relação direta entre a foto do colo da moça com o pingente e o desequilíbrio entre o número de jogadores e jogadoras, não é preciso muito esforço. A legenda que acompanha a foto indica que o lugar possível e desejável para a mulher no RPG não é o de participante ou de pessoa, não há um rosto ou identidade na mulher exibida, não há ação ou iniciativa ali. Há apenas um decote. Que mulher quer ser apenas um decote em uma mesa de jogo? Entenderam o que é objetificação?

Para ampliarmos a participação feminina, é fundamental criarmos um ambiente acolhedor, amigável, respeitoso. Afinal, não é que mulher não combina com RPG. Mulheres não combinam com machismo. E a cada vez que mulheres são tratadas como troféus a serem disputados pelos jogadores homens héteros, é machismo. A cada vez que uma personagem feminina tem como única ação possível para a resolução de um impasse seduzir e negociar sexualmente com outros personagens, é machismo. A cada vez em que o roleplay se torna assédio às personagens femininas ou às jogadoras, é machismo. A cada vez que jogadoras ou personagens são desprezadas por não se enquadrarem nos padrões estéticos das fantasias sexuais dos jogadores, é machismo. A cada vez que jogadoras são menosprezadas, que suas ideias são ignoradas pelo grupo, que se restringe sua participação a certas cenas ou tipos de personagem, é machismo. A cada vez que um jogador homem é ridicularizado por querer jogar com personagens femininos ou por fazer coisas que são consideradas femininas, é machismo.

Não é raro jogadoras de RPG passarem por situações de constrangimento em mesas. Desde serem tratadas como “namoradas do Mestre”, até ter suas personagens constantemente cantadas só por estarem ali e serem personagens de mulheres, passando por tentativas de abuso físico de jogadores homens contra jogadores, dentre outras formas de agressão, ofensa e opressão.

Por que será que muitas mulheres que travam contato com o RPG optam por não permanecer na “cena”? Talvez porque a triste realidade é que muitos grupos ainda são extremamente tóxicos, e encontram apoio em posts como o do tal pingente – afinal, se o corpo da mulher pode ser objetificado, para que tratar a jogadora como gente?

O Assédio Contra Personagem

Inúmeras de nós já passaram por isso. Fazemos as nossas personagens, dando tudo da nossa criatividade, revirando livros, cenários e, então, vamos animadas para o jogo. Ai o jogo começa, e não demora para que um jogador faça algo bizarro. Esse “algo bizarro” pode assumir várias formas.

Fazemos uma personagem mulher e… em poucos minutos de encontro com o grupo, começam as tentativas de assédio por parte dos outros personagens. E não, a personagem não precisa ter Aparência ou Carisma altos – sempre tem um jogador nojento para começar com brincadeirinhas idiotas de cunho sexual. Essas coisas bizarras podem evoluir, não são raros os relatos de personagens de mulheres serem estupradas “em jogo, claro, tudo brincadeira”. Como se estupro fosse brincadeira, quando estamos inseridas, todas, em um mundo real onde somos constantemente agredidas, temos nossa intimidade violada por estranhos que fazem questão de nos lembrar, o tempo todo, que mais do que assalto, devemos temer o estupro. Estupro nunca, nunca é brincadeira. Mas esses jogadores parecem achar que é tudo uma piada… isso, claro, quando não é um (ou uns) NPC(s) do Mestre que tenta(m) ou, de fato, violam, nossas personagens.

Então ok. Desistimos de personagens mulheres, vamos então jogar com uma personagem homem. E lá começam as brincadeiras homofóbicas – porque claro que se uma mulher está jogando com uma personagem homem, só pode ser gay. Ou não pode ser levado a sério. E se for gay, bem… lá vem mais e mais homofobia. Tudo na brincadeirinha, claro. Porque afinal, quem essas mulheres pensam que são pra jogar com um personagem homem que seja coerente? E daí que pessoas homossexuais são constantemente agredidas todos os dias? E daí que pessoas homossexuais até mesmo jogam RPG? Que abuso, não é mesmo? E se reclama, só pode ser sapatão. Olha a lesbofobia ai, gente…

Não há escapatória em muitos grupos de RPG – são meios tóxicos para qualquer mulher. Ou aguentamos as “brincadeirinhas”, ou vão nos comparar “com as outras mulheres”. Como se houvesse algo errado em ser mulher.

O Assédio Contra Jogadora

Então conseguimos deixar algumas “piadas” passar, pra jogar assim mesmo e… jogadores resolvem que nossos corpos são públicos. Não são raros os relatos de tentativas de passadas de mão em pernas, seios, quadris. Tentativas de beijos forçados.Sem falar nas cantadas insistentes, como se estivéssemos nas mesas pra servir de namorada dos jogadores ou Mestres homens e não para, simplesmente, jogar.

Meninos, nós não vamos jogar RPG pra “arrumar namorado”. Vamos jogar RPG para… jogar RPG. Nossa vida amorosa não tem relação com o jogo. Lidem com isso.

E os Grupos de RPG pela Internet?

Muitos grupos de RPG, ocupados e gerenciados principalmente por homens, querem tanto opinião, mas quando essa opinião aparece, prontamente tentam silenciar todos que discordem de sua ideia ou piada, muitas vezes com o apoio da moderação (isso quando não parte da própria moderação). Isso ocorre pois garotas de fato são poucas na cena do RPG, e uma única mulher sozinha tentando rebater todos os comentários furiosos de um bando inteiro de homens irritados parece ser o único ponto discordante; cortando a mulher, corta-se a discussão. Afinal, devemos evitar a bagunça, certo? A maneira mais fácil é calar as poucas mulheres que reclamam nesse mundo de grupos de RPG. Isso dá a ilusão que ninguém está descontente com nada. Outras vezes, os homens só começam a levar a sério quando outro homem mostra desgosto pela atitude; e esse é ridicularizado, afinal, está indo contra a “irmandandade dos homens”. Acontece que talvez devêssemos levar em consideração o que é melhor pro meio RPGista como um todo; se queremos amadurecer vamos ter que conviver com maior diversidade, e o jogador terá que se dar conta que suas piadas incomodam as mulheres cis e as mulheres trans, as pessoas trans não-binárias, os gays, as lésbicas, as pessoas biafetivas e todos os outros grupos minoritários no universo RPGístico.

Quando se comenta de algum comportamento desagradável, muitos caras reclamam que estão sendo silenciados e censurados: esse não é o caso, pois os mesmos homens não se veem com medo de encontrar com um grupo de RPG desconhecido, não se veem mal representados nos livros e, certamente são a parcela mais vocal, com maior voz, da nossa pequena comunidade, e a que é mais importante paras as empresas e escritores que nos vendem livros de jogo. Isso pode ser notado pela quantidade de imagens dedicada a agradar o homem hétero jogador de RPG e pelo texto, que quase sempre leva em consideração que seu jogador é um homem. Inclusive os textos sobre mulheres no RPG (jogadoras ou personagens) são voltados para homens.

Isso ocorre pelo pequeno número de mulheres, sim, e demonstra que definitivamente não é o interesse do jogador homem “médio” que está sendo ameaçado por nossas exigências de respeito, então não se pode falar sobre censura. Além disso, censura seria se seus comentários fossem apagados (Como muitas vezes ocorre no caso de poucas mulheres contra um grupo todo) e a pessoa em questão fosse convidada a se retirar. Entendam que liberdade de expressão não te dá liberdade de opressão. Você pode falar o que quiser, desde que isso não oprima outras pessoas pelo simples fato de que essas pessoas são quem são.

Qual o objetivo desse texto, afinal?

Este texto é, sobretudo, um convite para que toda a comunidade RPGística repense suas práticas e suas relações. RPG é sobre ampliar nossos universos e celebrar toda a diversidade que nossas vidas e nossas imaginações podem nos proporcionar. Não é sobre estreitarmos nossos horizontes com ódio e preconceito.

Vamos lembrar que a cena do RPG no Brasil deve muito às jogadoras. Há mulheres trabalhando nas editoras, escrevendo, traduzindo, editando e ilustrando RPGs. Há mulheres pesquisando sobre RPG nos diferentes campos acadêmicos. Há mulheres mantendo e alimentando sites, blogs, fóruns, comunidades online. Há mulheres batalhando espaços de jogo em locais públicos, mantendo mesas regulares, negociando a visibilidade do jogo, lutando contra os preconceitos que sofremos por sermos nerds, por sermos RPGistas. E, sobretudo, há mulheres RPGistas, curtindo jogar/narrar/mestrar/viver nossos jogos de interpretação de papéis.

Convidamos todas as mulheres – nessa pluralidade de experiências e sentidos que o termo mulheres compreende – a marcar encontros, apoiar experiências, compartilhar sucessos e desafios do nosso meio. Oferecemos a comunidade Mulheres RPGistas como um entre vários locais para isso. Convidamos também às mulheres para um encontro na Terra Magic, em São Paulo, no dia 08 de março. E aí, bora, mulherada?

Assinado
Grupo Mulheres RPGistas
Blog Livro dos Espelhos
Renata Pereira Ferro Gil – jogadora de RPG
Ana Letícia de Fiori – jogadora de RPG
Fabiana Léo – jogadora de RPG
Grifo Editorial
REDERPG
Diogo Nogueira – Pontos de Experiência
Nerd Socialista

Sobre Eva

Escritora, tradutora e revisora, bruxa feminista, maga da Dragão Brasil, Oráculo do Livro dos Espelhos e editora da Aster Editora.

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