Drive Thru RPG

Afinal, O Que é Vulgar em Mago?

28/02/2012

Esta é uma dúvida muito comum. Está na mão do Narrador? Quem decide quando é a hora do (ui) Paradoxo? Onde está Wally?

Eu poderia ser simplista e responder “tudo o que alguém olha e diz que não pode ser, é vulgar”, mas felizmente, como tudo em Mago, não é tão simples. Algumas pistas tornam o processo mais simples. Vou dar o meu método. Não é o único, mas funciona nas minhas mesas. É um texto um tanto longo, mas que talvez tire algumas dúvidas e levante algumas ideias. Mais uma vez, não pretendo encerrar a discussão, apenas comentar algumas possibilidades.

A Realidade do Mundo das Trevas é Subjetiva

Você sabe o motivo de um livro contradizer o outro e o crossover no Mundo das Trevas ser um caos? Para além da forma como os títulos foram desenvolvidos, existe uma questão muito simples. Subjetividade. Ah sim, e mais subjetividade. Num mundo onde a crença é tudo, ela faz toda a diferença. O mago está limitado à subjetividade coletiva e à própria, porque a crença é tudo. Um ser realmente Desperto, Artífice da Vontade, é capaz de contradizer a crença das massas, e eventualmente, até a própria, mas nada vem de graça. Achou que aqueles poderes bacanudos vinham assim, de graça? Poderes cósmicos, fenomenais… dentro de uma lampadazinha. Esta lampadazinha nada mais é do que a descrença de que o Desperto pode, de fato, fazer algo. Quando muitas pessoas são descrentes, ou seja, não acreditam que algo é possível, juntas, elas moldam a realidade, pois possuem tanta energia que ela pode, eventualmente, atacar o mago de volta. Este conjunto de crenças e descrenças forma o Consenso.

Consenso… quê?

Pense o seguinte: um mago pode afetar pequenas porções da realidade, criar coisas nela, manipular, moldar, destruir de forma irreversível. Porém, muitas pessoas juntas podem fazer a mesma coisa não apenas com pequenas porções, mas com toda a realidade. O consenso é a crença combinada de todo mundo, de todos os seres inteligentes da Tellurian (ai, adoro a palavra Tellurian gente), racionalizada de tal forma que se torne um dogma, uma lei natural. Dizem que a Ordem de Hermes foi a primeira a perceber que era possível guiar a crença das pessoas, mas foi a Ordem da Razão quem primeiro levou a cabo o projeto de controlar o Consenso de todo o mundo, dando assim, início à Guerra da Ascensão, atraindo Adormecidos para a sua causa.

Se pessoas o bastante começarem a acreditar em algo, este algo vai se tornar real – e esta é a maior subjetividade do Mundo das Trevas. Quando a Ordem da Razão ensinou pras pessoas comuns como usar a medicina, a eletricidade, a cuidar dos campos de uma forma que a produção de alimento seria maior, mais e mais pessoas foram acreditando que aquilo, aquela “mágika”, não era nada sobrenatural, e passaram a aceitar como ciência. Afinal, de onde acham que surgiram os micro-ondas? Foi assim que a Ordem da Razão estabilizou a realidade, que até então era caótica e fragmentada, para que formassem um único conceito, sólido e seguro.

Mas tudo tem um preço. Em troca desta realidade segura, povos foram massacrados – tudo o que era diferente deveria ser eliminado, pelo bem maior. Não que não fosse uma causa nobre no início, mas quando você começa a eliminar pessoas simplesmente porque se recusam a concordar com você, rapidamente você passa para uma ditadura, um pesadelo orwelliano.

No cenário de Mago: A Ascensão, o Consenso está na mão da Tecnocracia, a antiga Ordem da Razão. Ainda que existam algumas zonas e oásis de liberdade e aleatoriedade, a ciência governa o mundo. Oras, mas a ciência não é uma coisa boa? Ela é, se não perder a sua centelha criativa, unicamente possível num cenário não-opressivo. Tenham em mente, aliás, que mesas da Tecnocracia rondam nesta paranóia e opressão, ainda que, sim, momentos heróicos existam. Mas, caramba, esse texto é meu, então quem quiser que escreva um artigo em resposta que será publicado… mas eu estou divagando. Sim, o mundo moderno, o nosso. Nele, as leis naturais estão definidas, as pessoas não aceitam o sobrenatural… não mesmo? Quer dizer, os horóscopos ainda são publicados nos jornais, pessoas deixam ciganas lerem suas mãos nas ruas, ilusionistas fazem sucesso em horário nobre da TV e nos programas dominicais. Ainda que a Tecnocracia tenha feito um ótimo trabalho, por trás da descrença fria e cínica, a esperança ainda palpita, para surgir nos momentos mais inesperados, irrompendo e irradiando pra todo lado. Mas o Consenso resiste, temendo ser abalado. Porque as pessoas sentem medo. Medo do que está lá fora, medo dos próprios sentimentos e explosões de liberdade e criatividade. Facilmente taxam como “esquizofrênicos” todos os que são diferentes, ou, no melhor dos casos, como vagabundos, poetas ou sonhadores.

Mas em algum momento, todos os magos, mesmo os agentes mais leais da Tecnocracia, vão precisar forçar o Consenso um pouco mais do que ele reconhece. E ai…

Paradoxo!

E ai que a realidade se rompe. O por quê? Ai é mesmo com o Narrador, sinto muito. As teorias são muitas, díspares… ei, crie seu próprio Mundo das Trevas!

Ainda assim, algumas coisas permanecem. O Narrador, antes de mais nada, precisa decidir quão forte o Consenso é em determinada região. É uma cidade onde a crença na ciência e na razão é absurda? Ou é o bairro boêmio da cidade, cheio de hippies, ciganos e artistas de ruas? É uma área de diversão, onde o consumo de álcool e outras drogas alteram o estado de percepção das pessoas de forma constante? Ou é um terreiro de candomblé numa cidade em que as pessoas acreditam nessas coisas, bem no bairro negro de uma cidade conhecida por seus templos religiosos e grandes procissões? Este é o primeiro passo para determinar o que pode e o que não pode ser feito.

Em termos de mesa, quando seu jogador declarar que vai realizar uma mágika, lembre-se de perguntar “tá, mas como ela vai parecer pra quem estiver olhando?”. Esses dias um jogador meu inventou de usar Forças 2 pra sair planando sobre São Paulo… bem, eu tive que desencorajá-lo, porque certamente ele não chegaria muito longe na região da Consolação-São Paulo antes de explodir numa bola luminosa, e então olha, temos estrelas cadentes esta noite! E minha mesa é de Segunda Edição, onde as regras tecnicamente são mais brandas, porém, antes de mais nada, bom senso de todas as partes. Cabe ao Narrador definir, de saída, quais são as regras de Consenso do Mundo das Trevas dele, e aos jogadores, não inventarem de jogar uma adaga contra o carro dos Tecnocratas, vê-la virar uma espada gigante que corta o carro ao meio (e sim, eu já ouvi esta pérola de outro Narrador).

Por último, os Narradores (e mesmo os jogadores) devem ter em mente que o Paradoxo é tão forte quanto o que o mago fez para causá-lo. O Choque de Retorno age na mesma intensidade que o jogador que o provocou. Isto nem sempre acontece num único feitiço, uma vez que personagens costumam acumular pontos de Paradoxo em suas fichas aos poucos. Porém, a partir do quinto ponto de Paradoxo, as coisas começam a ficar interessantes perigosas.

Autor: Eva

Sobre Eva

Escritora, tradutora e revisora, bruxa feminista, maga da Dragão Brasil, Oráculo do Livro dos Espelhos e editora da Aster Editora.

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