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A Inquisição no Mundo das Trevas

27/11/2012

Vira e mexe, lemos aqui e ali citações sobre a tal da Sociedade de Leopoldo nos livros do Clássico Mundo das Trevas. Você sabe quem eles são? O que eles fazem, e por quê? Hoje trago para vocês algumas informações sobre a Inquisição do Clássico Mundo das Trevas.

Gostaria de chamar a atenção para o fato de que você não vai encontrar aqui todas as informações, com todos os seus pormenores, sobre os cruzados. É uma resenha, com algumas ideias gerais e em breve, informações de sistema, para quem quiser entender um pouco melhor o papel da Inquisição moderna no Clássico Mundo das Trevas. Para informações completas sobre a Sociedade de Leopoldo, consulte o livro The Inquisition.

Pretendo continuar essa série de artigos, sem pressa, com mais informações da história da Sociedade, o papel que ela desempenha no mundo moderno, sua ligação com os outros caçadores, suas subdivisões, até chegar, finalmente, no processo de criação de personagens, para aqueles que queiram se arriscar a jogar com a Sociedade de Leopoldo, mas que bem pode servir para Narradores que queiram usar a Sociedade de Leopoldo como antagonista em suas campanhas, então no futuro próximo, ao final deste artigo, você encontrará links interessantes para personagens cruzados.

O Mundo Precisa de Novas Cruzadas?

O Mundo das Trevas é habitado por seres sobrenaturais. Temos vampiros, lobisomens, magos, fadas, fantasmas, seres inomináveis, todos numa batalha constante… e no meio de tudo isso, os humanos. Geralmente vistos como alimento ou seres ignorantes a serem guiados, ninguém costuma dar tanta importância pra eles durante os jogos, não é? Quer dizer, eles são comida e diversão para os vampiros, pragas que infectam Gaia para muitos Garou, crianças teimosas que precisam ser guiadas pelos magos, e mesmo de modos… complicados pelos changelings (a forma como alguns changelings coletam glamour…). Ou seja… humanos são seres ignorantes que raramente alguém leva a sério. E é ai que entra a Inquisição.

O que é a Inquisição?

Sendo rasa, é uma organização de mortais dedicados (geralmente em nome de Deus) a erradicar os seres sobrenaturais. Sim, a Ordem da Razão já teve um grupo que usava a religião para caçar os magos, vampiros e lobisomens, e o Coro Celestial se enfiou nas fileiras da Igreja. Mas, quando descobrimos como funciona a Inquisição, vemos que nem todos os humanos estão dispostos a se calar e aceitar ser comida, massa de manobra ou tratados como crianças a serem orientadas pelos seres sobrenaturais.

A Inquisição se refere, nos dias de hoje, à organização chamada de Sociedade de Leopoldo, desconhecida dos demais mortais e nada querida dos seres sobrenaturais. Para a Sociedade, os seres sobrenaturais nada mais são do que seres que compactuam com o Anticristo. Ela se prepara para a Parousia, a Segunda Vinda, quando os filhos de Deus e os filhos do Inimigo lutarão a última batalha.

Qual o Tema e o Clima para Jogos com a Sociedade de Leopoldo?

O tema de jogos com a Sociedade de Leopoldo é a cruzada – eles se veem como nada menos do que o último baluarte da humanidade contra as hordas que habitam a Terra. Toda a Terra é a Terra Santa, e todos da Sociedade são os novos Cruzados. Porém, é um caminho solitário. O resto da humanidade está pronto a aceitar a Sociedade de Leopoldo como um bando de loucos, de fanáticos religiosos que enxergam ameaças onde ela não existe. Inquisidores são amazonas e cavaleiros sagrados, que lutam pela humanidade, mas se mantendo a parte dela pelos conhecimentos que possuem.

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Esses cruzados se mantêm alerta, se preparando para a batalha final –que ainda não chegou, mas quando chegar, eles estarão prontos.

O clima dos jogos com A Inquisição é de frenesi apocalíptico. A Sociedade não fará nada menos do que salvar a Terra, e se prepara constantemente para a Parousia. O mais importante é estar sempre vigilante e preparado. Muitos inocentes morrerão, muito sangue será derramado, mas a Sociedade possui a certeza absoluta de que sairão vitoriosos quando o tempo chegar. Ainda que nem todos os jogos se centrem no Ragnarok, cada auto-da-fé tem seu papel na batalha final que se aproxima cada vez mais.

O Início da Inquisição…

A Inquisição como conhecemos hoje surgiu no século XIII. Porém, surgiu bem antes, quando os alvos não eram as bruxas ou outros seres sobrenaturais, e nem mesmo os hereges, mas simplesmente a heresia, para assegurar a unidade doutrinal do Cristianismo.

Até o século IV, o Império Romano via o cristianismo com desconfiança e antipatia. Mas, conforme o cristianismo se afastou do judaísmo, o cristianismo perdeu seu status de religião lícita – foi quando os cristãos começaram a ser objeto de riso e de perseguição, até ter finalmente sua religião declarada como crime. Acreditava-se, então, que os cristãos ameaçavam a ordem social e natural – os romanos temiam que, ao se negar a honrar o Imperador e os deuses romanos, os cristãos provocavam pragas e outros desastres naturais, pois enfureciam deuses e espíritos. Além disso, a ignorância romana sobre o cristianismo fez com que interpretassem erroneamente a liturgia e a teologia dos cristãos, o que os levou a acusar os cristãos de cometerem canibalismo e incesto. Assim, iniciou-se a época dos mártires.

As coisas só mudaram para os cristãos no século IV, quando o Imperador Constantino se converteu ao cristianismo, e o cristianismo passou a ser religião oficial de estado. Então, os povos pagãos e os acusados de heresia (que muitas vezes se confundiam) é que começaram a ser caçados e perseguidos – não pela Igreja, mas por líderes seculares, que cometiam atrocidades contra os acusados de heresia. A Igreja apenas fechou os olhos, encarregando-se de defender apenas a confiscação de bens como castigo o bastante para os hereges.

Até ai, o objetivo da Inquisição era perseguir os hereges. Como os cristãos se opunham a qualquer forma de magia e temia a atividade do que chamavam de demônios, aqui e ali surgiam conflitos contra forças do Inimigo –espíritos malignos em florestas, evitar qualquer forma de mágica e afins. Entretanto, não havia nada de fato organizado. Esta perseguição aos hereges começou com o surgimento dos Cátaros, dualistas religiosos que viam Deus e Satã como iguais. Assim, o papa Inocêncio III organizou uma cruzada contra eles da mesma forma como até então os cruzados combatiam os muçulmanos.

Nesse contexto, a Ordem de São Miguel surgiu e se empenhou em uma batalha contra as forças demoníacas, simplesmente porque acreditavam no aspecto físico da batalha do Apocalipse, além do espiritual. Portanto, além de combatentes (porque acreditavam que a Igreja não estava preparada para a última batalha), eram exímios exorcistas. Assim como São Miguel venceu Satanás, os Micaelitas estavam preparados para combater os demônios que infestavam a terra, e muitas comunidades cristãs enviavam pedidos de ajuda à Ordem de São Miguel para lutar contra possessões e infestações demoníacas. A Ordem crescia, e parecia que havia muito a ser feito.

Porém, como muitos dos selos do Apocalipse aparentavam estar sendo quebrados e nada acontecia, a Ordem de São Miguel foi diminuindo, até que, em 1450, a Ordem de São Miguel era composta de menos de uma dezena de monges.

… e a Fundação da Sociedade de Leopoldo

Em 1224, o Imperador Federico II institui Inquisidores para erradicar a heresia na Itália e na Sicília. Mas foi em 1231 que o papa Gregório IX promulgou a Excommunicamus, que estabelecia tribunais para julgar e castigar os casos de heresia. Os que se arrependiam recebiam pena de prisão perpétua, os demais eram executados.

Um dos primeiros a receber as honras dos deveres sagrados da Inquisição dói Leopoldo de Murnau, um dominicano de idade avançada de origem bávara, que logo encontrou provas diretas da existência de criaturas sobrenaturais e concluiu que aqueles eram seres demoníacos e uma ameaça mais importante e perigosa para a fé do que os hereges. Leopoldo via o aumento da atividade sobrenatural como um sinal da aproximação da Parousia, o momento em que Cristo voltaria para combater as forças do Inimigo – portanto, esses seres sobrenaturais eram o próprio exército do Inimigo, que estavam sendo dispostas para a batalha. Leopoldo começou a reunir um pequeno bando de Inquisidores dedicados a combater tais seres sobrenaturais, que se preparariam para, quando da volta de Jesus, ser um exército pronto para receber ordens.

Em 1231, Leopoldo pediu ao Papa Gregório IX uma autorização especial para caçar e combater os inimigos sobrenaturais da Igreja. De início, o papa relutou, mas levando em conta a grande reputação de homem sábio e santo que Leopoldo possuía, deu sua autorização para que fundasse uma Sociedade – que, para garantir sua eficácia (e proteger a reputação do papo, caso a Sociedade falhasse), deveria trabalhar em segredo.

Em 1252, o papa Inocêncio IV aprovou a tortura como método de extrair confissões.

Os seguidores de Leopoldo eram poucos, mas dedicados. Se misturavam com a Inquisição comum, e se intrometiam quando seres sobrenaturais apareciam. Com a liderança de Leopoldo, cresceram em poder.

A Ordem de Santa Joana

Inspirada pelo fervor apocalíptico e pelo espírito cruzado de Leopoldo, uma visionária francesa chamada Jeanne Rouller começou a recrutar mulheres para a mesma causa. A fé de Jeanne era forte, e ela e suas seguidoras combateram os exércitos do Inimigo com a mesma dedicação e força que os homens de Leopoldo. Infelizmente, sua causa passou batida, e Jeanne nunca foi reconhecida. Após sua morte, suas seguidoras começaram a se referir a ela como “nossa Santa”, fundando a Ordem de Santa Joana para levar adiante sua causa sagrada. Entretanto, esta nova Ordem também nunca foi reconhecida formalmente, e pareceu não ter a menor importância.

Quando a Sociedade de Leopoldo começou a se organizar formalmente no século XV, propôs que a Sociedade e a Ordem trabalhassem juntas. A Ordem aceitou, mas muitas poucas da Ordem passaram para a Sociedade, e as que passaram, continuavam misteriosas e reservadas, e a Sociedade aprendeu muito pouco sobre como a Ordem funcionava. Quando no século XX a Sociedade começou a aceitar mulheres em postos de maior influência, alguns questionaram a necessidade de uma Ordem separada para mulheres, e propôs a plena incorporação da Ordem à Sociedade de Leopoldo, mas as seguidoras de Santa Joana recusaram a proposta sem nunca explicar os motivos.

Fonte: The Inquisition – páginas 5 a 14
Imagens: Crusader by StationX e Magdalena por Ryan Sook
Resenhista/tradutora: Eva

Sobre Eva

Tradutora, revisora, escritora e sonhadora. Anarcafeminista em constante estado de amor e horror com o mundo. Editora no Livro dos Espelhos.

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