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A Busca pela Iluminação

09/02/2012

Por que minha consciência Desperta parece um poema surrealista?
– jogador de Mago confuso durante uma Busca

Na descrição mais básica, uma Busca é uma missão espiritual, de iluminação, um ensaio (ou uma tese de conclusão de curso :) para que um mago aumente a sua compreensão a respeito dos mistérios da Realidade. Buscas espirituais fazem parte, desde sempre, de culturas humanas, como ritos importantes na busca da compressão de mistérios do mundo, como parte do caminho em busca da sabedoria que a experiência traz. Para os Despertos, Buscas são elementos de crescimento, esclarecimento de eventos que levam a uma sabedoria superior – além, é claro, de acesso a mais poder. O mais assustador é, entretando, o caminho durante a Busca, mais propriamente que o seu resultado.

O Que é a Busca?

Sendo direta, a busca é a relação direta entre a mente do mago, seu Avatar, seu subconsciente e a realidade. Muitas vezes, através de coincidências, visões, símbolos que surgem ao acaso, sonhos, “viagens astrais”, o Avatar procura testar a sabedoria do mago, colocando obstáculos que ele deve superar ou simplesmente destruir, quebra-cabeças que ele deve montar à perfeição para que possa seguir adiante em seu Caminho.

Magos são, antes de tudo, humanos. Então, em primeiro lugar, uma Busca serve para levar o mago adiante, para superar sua falibilidade humana, tanto da mente quanto do espírito. Magos precisam passar por instantes de desafios, de alumbramentos, que esclarecem onde estão e quais são os obstáculos com os quais tem que lidar para ir mais além.

Além disso, o caminho para a Ascensão é frágil, cheio de armadilhas, perigos e enganações. Apenas uma mente e um espírito realmente sábios, trabalhando em conjunto, o torna capaz de desenvolver o discernimento adequado entre o que é real, o que é ilusório e o que é tanto real quanto ilusório, mas, ainda assim, necessário (e também tudo aquilo que deve ser jogado fora). Tais verdades, subjetivas, são únicas para cada indivíduo. São as Buscas que, ao levar o mago adiante quando realizadas com sucesso, levam o mago a vencer preconceitos e seu paradigma restritivo, apreendendo mais da Tapeçaria Infinita que forma o Todo.

Por que Realizar uma Busca?

Em primeiro lugar, para aumentar um pontinho em Arete. Este é o motivo mais básico para que um jogador peça ao Narrador que este desenvolva uma Busca para seu personagem. Mas, antes, Narrador e jogador precisam se conscientizar que uma Busca não começa do nada. Os testes sobre a iluminação pessoal do mago são diários (o que se reflete na experiência gasta na compra do Arete), através de pequenas pistas e desafios que o Avatar coloca e a interação com os desafios do cotidiano, em pequenas coisas, já que é no dia-a-dia que o mago experimenta coisas novas e exerce a sua vontade. A Busca começa gradualmente, com visões, palavras ditas ao acaso que ecoam na alma do Desperto, e que dão pistas, dentro de jogo, que é a hora dele ir atrás do que essas coisas significam, dentro e fora de si.

A partir do momento em que o mago vai atrás das pistas, ele podem tentar isolar tais símbolos de um modo mais amplo, sem a influência do mundo “real” e suas limitações. A Busca, então, quando chega em seu ponto decisivo, reflete a luta interior do mago, sua fraqueza humana contra sua tendência dinâmica a mudar, a evoluir, a se tornar algo maior. É uma viagem interior, então quem narra e quem interpreta devem se ater aos detalhes e conhecer a fundo a forma como o personagem vê a si mesmo mesmo, o mundo, as outras pessoas e tudo o mais.

Neste auge, o mago costuma ser testado de três formas. Primeiro, sua personalidade é testada (ou seja, Natureza, Comportamento e Essência), colocada em situações de desafio, para que, assim, o mago desenvolva seus pontos fortes e supere seus defeitos, através da compreensão final de tais aspectos. Depois, as crenças do mago são testadas. Todo mago possui um modelo de crenças, o famoso paradigma, que é uma interação entre o conjunto de crenças de sua Tradição (ou Convenção, Ofício) e as crenças pessoais do próprio mago. Tais crenças são colocadas em xeque e, uma vez que o mago tenha sucesso, adquire maior sabedoria, ao compreender verdades superiores, permitindo que ele vá além da própria crença – ou a reforçando, por algum caminho misterioso. Quando um mago vai além da própria crença, por exemplo, ele começa a se tornar capaz de descartar focos. Por último, o poder pessoal do mago é testado, principalmente sua vontade e o que ele é capaz de fazer com o que já sabe, magikamente falando. Um mago que não seja capaz de usar todo do próprio potencial não consegue seguir adiante.

Planejando Buscas

Cedo ou tarde, jogadores vão pedir para aumentar o Arete de seus personagens. Recomendo fortemente que o jogador converse com o Narrador o mais cedo possível. Buscas precisam ser planejadas e introduzidas aos poucos, geralmente envolvendo dedicação do Narrador ao desenvolver algumas cenas solo com o jogador em questão, sem, no entanto, deixar o resto da mesa esperando. Narrador e jogador devem, então, começar a conversar, e aos poucos, elementos do início da Busca devem ser introduzidos nas cenas do personagem.

O Narrador, então, deve tomar nota de algumas questões, como pontos fracos do personagem, tanto aqueles traduzidos em termos de regras como, também, aqueles que o personagem vai demonstrando ao longo dos jogos. Não deve esquecer, em momento algum, de prestar atenção se o jogador está interpretando as fraquezas do personagem. Depois, deve tomar nota se o personagem está sendo interpretado de acordo com a sua Essência. Jogadores que fogem da Essência de seus personagens enfurecem seus Avatares, que vão fazer de tudo (inclusive criar uma Busca impossível) para colocar o mago de volta nos trilhos.

Na hora de planejar os desafios da Busca, o Narrador deve ter tudo isso em mente, e então, criar cenas ou situações que testem a personalidade do mago, a fé que ele deposita no próprio paradigma e o uso que faz de seu próprio poder. Pode-se testar as três coisas ao mesmo tempo ou escolher um ou dois em detrimento de um outro. No fim, a decisão é do Narrador, que nunca deve perder de vista a Essência do Avatar do mago. Avatares dinâmicos tendem a testar a capacidade de mudança e evolução do mago; primordiais, tendem ao mítico, ao simbólico ou mesmo ao surreal; padrões tendem à lógica pura, enigmas que devem ser resolvidos para que, através do reforço de velhos conceitos, chegue-se a novas conclusões e aplicações; investigativos tendem a buscar soluções de problemas e o alcance de objetivos específicos e a forma como o mago chega na resposta, independente da resposta.

Além, o Narrador pode selecionar, em palavras-chave, o objetivo real da Busca do ponto de vista do personagem. É importante que o jogador não faça ideia do que o Narrador queira dele, e tenha que decifrar as pequenas pistas e juntar os caquinhos de informação e tente chegar a uma conclusão sozinho, seja ela qual for. Afinal, assim como o Narrador, o jogador deve conhecer muito bem o próprio personagem. Assim, o Narrador dá ao jogador a oportunidade de surpreender, já que o jogador pode chegar a uma solução totalmente inesperada pelo Narrador, criando situações novas, mas que, igualmente, servem ao desafio. O clima da Busca nunca deve ser o de jogador contra o Narrador, mas de parceria absoluta, procurando contar uma boa história e se divertir em grupo, onde todo mundo possa aprender algo e dar boas risadas.

Durante a Busca

Eu uso quatro formas de Narrar a Busca em si:
Sonho dentro do sonho: são as mais comuns, e surgem no meio dos sonhos de um mago. Permitem uma dose qualquer de surrealismo, de mítica e de simbolismo, dando o controle total da realidade pelo Narrador.

Alucinações: são fugas da mente durante a meditação, seja a meditação budista, seja durante um exercício lógico intenso, como por exemplo, um persopnagem de Essência Investigativo que deseje “jogar xadrez contra si mesmo” ou, ainda, visões induzidas por psicotrópicos.

Ilusões: mescla de realidade, alucinação e truques da mente, são aquelas situações em que o personagem está agindo diretamente sobre uma situação específica da realidade, teoricamente cotidiana, de alto grau de desafio, e que podem parecer, aos demais, significativas ou insignificativas, mas que, ao mesmo tempo, apresentam situações em que o mago jamais tem certeza se aconteceram mesmo ou se foram ilusões criadas por sua mente.

Busca espiritual: comuns para xamãs e Oradores dos Sonhos, podem ser buscas interiores ou exteriores, mas que ocorrem em outros mundos, dentro do mundo simbólico dos sonhos do mago, de uma outra pessoa e, mais comum ainda, em algum Reino da Umbra.

Buscas Falhas

E quando a Busca falha? Cada Narrador adota uma solução quanto aos pontos de experiência, uns dizem que os pontos gastos no ponto de Arete que acabou não comprado permanecem com o jogador para que gaste como quiser, enquanto outros garantem que os pontos compram a Busca em si. Eu, quando narro, devolvo ao jogador metade dos pontos de experiência, que ele deve anotar separados dos demais, para serem gastos numa Busca futura. Afinal, mesmo quando se falha, se pode aprender algo de valioso que será usado no futuro. A outra metade deve ser gasta imediatamente em Habilidades que foram diretamente treinadas durante o período que antecedeu a Busca e na Busca em si.

Como um exemplo de Busca falha, eu publiquei um conto de uma personagem minha, a WildStar, uma akáshica dinâmica que andava um tanto passiva demais perante o mundo e foi zoada pelo próprio Avatar.

Autor: Eva

Sobre Eva

Tradutora, revisora, escritora e sonhadora. Anarcafeminista em constante estado de amor e horror com o mundo. Editora no Livro dos Espelhos.

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